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Todas as vezes que você tentar passar "panos quentes" para o mal que lhe fizeram, se convencendo de que não fizeram, isso tem um custo emocional que lhe joga num processo de adoecimento e que muitas vezes é a causa de processos depressivos.


Vou propor um caso fictício para exemplificar isso.


Renata cresceu em uma família onde era constante a traição por parte dos pais. Sempre viu a mãe sofrendo em função do pai ter várias amantes. No entanto, no processo terapêutico é comum Renata falar superficialmente sobre isso, afirmando que APESAR DAS TRAIÇÕES, O PAI NUNCA A FEZ NENHUM MAL. AO CONTRÁRIO, SEMPRE FORA MUITO BOM COM ELA. QUE ELE SEMPRE FORA MUITO TRABALHADOR E PRESENTE NA VIDA DELA.


Junto a isso tiveram inúmeras outras situações que fazem com que Renata não AFIRME PARA SI MESMA A VIOLÊNCIA QUE SOFRERA. Fora submetida a situações de perigo constante por parte de outros membros da família, mas que narra com divertimento, achando graça disso tudo.


Qual é o mecanismo que Renata utiliza para não se dar conta do mal que sofrera?


O mecanismo psíquico da negação e da repressão. Ela precisou se DEFENDER PSIQUICAMENTE DO MAL QUE SOFRERA porque não suportaria lidar com a VERDADE SOBRE A SUA CONDIÇÃO. Não suportaria se dar conta do quanto sofrera junto com a mãe, do quanto fora traída junto com a mãe, do quanto o pai desvalorizara a família, do quanto se indignara pela mãe ter aceitado essa condição e do quanto fora submetida a perigos e situações de violência constante por outros membros da família.


Seria inconcebível para ela continuar vivendo se dando conta de tudo isso. Então ela precisou se dividir, se dissociar. Precisou fazer um verdadeiro malabarismo psíquico, excluindo da sua consciência esse mal todo, a raiva e o ódio que sentia, para poder continuar amando-os.


O problema é que tudo isso foi adoecendo ela. Porque para manter esses conteúdos todos reprimidos ela precisa de um constante esforço que ela nem se dá conta. E que suga toda a energia dela para outras esferas da vida.


É como se o grande triunfo dela na vida fosse passar o tempo todo mentindo para si mesma. Não por acaso, todas as vezes em que ela se depara com situações que a lembrem desse passado, que ela tenta negar, ela fica triste e deprimida e imediatamente busca "passar pano" para os pais. É o que ela também tenta fazer no processo terapêutico todas as vezes em que esse assunto vem a tona.


Em resumo, ela deseja se curar mas também não deseja. Porque a cura passa necessariamente pela culpabilização desses pais. Pelo apontamento do mal que lhe fizeram. E aqui não se trata de julgá-los, mas sim de responsabiliza-los, internamente falando, para que aí sim ela consiga posteriormente perdoa-los e seguir a sua vida abdicando de todo esse ódio e raiva que se mantem vivos dentro de si, fechados à sete chaves dentro de uma gaiola, e a adoecendo cada vez mais.


Aos poucos, Renata vai percebendo o quanto é importante para ela fazer as pazes com essa parte de si que teve que esconder. Com a ajuda do terapeuta e com a confiança obtida nele, ela tende a ir incorporando essa nova visão daquilo que lhe acontecera, podendo finalmente se libertar dessas amarras que a mantem presa aos pais, na qual tanto afirma querer se libertar.


A liberdade que tanto almeja depende de que essa raiva possa ser escoada, por mais difícil que isso inicialmente seja. Para isso, precisa deixar de idealizar esses pais e vê-los como seres humanos normais.

O problema é que isso vai totalmente contrário ao discurso religioso que tende a atribuir a imagem dos pais como pessoas sagradas e que por si só leva as pessoas a adoecerem emocionalmente e viver atrelado a eles, sem conseguir viver a própria vida.


Em 31/01/2025 - Por Rodrigo Stürmer

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Um 2025 corajoso a todos! Com menos idealizações e mais vida real! Com menos hedonismo e mais enfrentamento das nossas vulnerabilidades. 


Em 01/01/2025 - Por Rodrigo Stürmer

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Coração dividido por aqui. Férias batendo à porta, mas um espaço em branco, um vazio deixado. Ser professor, nos tempos atuais, é uma missão (quase) impossível. Mas missões (quase) impossíveis são gostosas demais. Elas nos mobilizam, desafiam, provocam dor e sofrimento. O conforto e a comodidade de uma vida monótona onde nada acontece ou os perrengues de uma vida vivida, com tudo aquilo que ela inclui (e exclui)? Lembremos: não teremos uma segunda vida para viver. Ou ouvimos nossos corações e nos jogamos naquilo que sentimos fazer sentido ou passaremos a vida maquinando o cérebro para não mover um músculo sequer. A vida é sobre coragem, sobre responsabilizar-se por aquilo que grita dentro de cada um de nós. Se há alguns anos alguém me dissesse que a minha vida tomaria o rumo que tomou, com toda a certeza eu não acreditaria. Eu vivo o improvável, eu sou o improvável! Nunca me preparei e muito menos me programei para esse momento. Eu só fui indo. Sempre fiel ao infiel que vive em mim. Sem chaves, sem cadeados, sem "tem que ser" assim ou assado. Então vai, arrisca, se joga. E afirmo com toda convicção: é massa demais a sensação de estar criando uma vida não conformada, autêntica. Errar, falhar por conta própria, pela coragem de meter a cara, sempre vai ser maior, mais grande, do que o conformismo baseado no medo de nunca arriscar. Não se trata de dar certo ou errado. Se trata de plantar as próprias sementinhas no mundo. Cheguei aqui sem conhecer absolutamente ninguém e finalizo o ano com tanta gente querida, com tanto aprendizado. Olhando para essa sala vazia, que até semana passada estava cheia, me pego pensando nos vazios que todos carregamos dentro de nós e do tempo que perdemos tentando preenche-lo (em vão). A vida não é sobre preencher, é sobre somar. Acolhe o vazio, conversa com ele, seja amigo de si mesmo. Quando um famoso filósofo propôs uma questão para medir o quanto as pessoas viviam uma vida que elas escolheram, ele estava justamente dizendo "olha só, você só tem uma vida, age em quanto tempo". Se você estivesse destinado a viver eternamente a mesma vida que vive hoje, como se sentiria? Hoje arrisco dizer que responderia "satisfeito" . E vocês? 


Em 16/12/2024 - Por Rodrigo Stürmer

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Segundo dados da secretaria estadual de educação de SC são mais de 14 mil estudantes diagnosticados com TDAH no sistema educacional do estado.


Na opinião de psiquiatras e neurologistas, esses casos tem uma base genética.


Interessante é que ninguém parece se questionar qual base genética é essa que tem se modificado tanto no mundo atual em que vivemos?


Ou seja, qual é a influência desse mundo hiper acelerado nesse montante de diagnósticos?


O que esses supostos transtornos estão tentando nos alertar?


Como sobreviver a essa sociedade doente sem adoecer em algum nível?


E ainda, será que precisamos diagnosticar toda singularidade não adaptável? 


Em 12/07/2024 - Por Rodrigo Stürmer

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Por que será que a maioria das pessoas vivem como se fossem viver para sempre? Será que a FINITUDE da vida é tão assustadora a ponto de se precisar negligenciar o presente a todo momento? Viver como se o HOJE não existisse e como se o AMANHÃ sempre estivesse disponível, pode ser um tremendo de um godó para se passar a vida em branco. Bóra se jogar!?


Em 27/04/2024 - Por Rodrigo Stürmer

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Minha dica para quem está iniciando na clínica.


Em 27/03/2024 - Por Rodrigo Stürmer

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Se eu pudesse dar um conselho, diria: parem de ouvir esses coaches de relacionamento que fazem pose de hetero top bem resolvido. Ficar com "todo mundo" e não ficar com "ninguém" fala da mesma carência e dependência emocional.

 

Em 20/02/2024 - Por Rodrigo Stürmer

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Escrever é a forma que utilizo para sublimar. Bebida, drogas e sexo nunca foram capazes de suprir minhas demandas internas. Ao contrário, quando utilizadas só criaram abismos ainda maiores. Hoje, somente com a escrita me sinto capaz de ampliar a minha conexão comigo e com a vida que vibra ao meu redor.


Tem sido meses difíceis. Quem vê a parte boa desconhece a parte "não boa". Não vou chamar de ruim, prefiro chamar de "não boa" em função dos aprendizados e da maturidade que as dificuldades trazem. Viver não é fácil, não é simples. Quem afirma o contrário me desculpe, mas sequer nasceu para essa vida ainda.


Ralo desde novo, foram vários empregos, infinitas madrugadas sem dormir, incontáveis milhares de horas de estudo. Nada conquistado até aqui foi fácil e é importante sempre não perder de vista isto. Nada, absolutamente nada, nessa vida acontece por acaso. Sempre fui intenso, focado e decidido em tudo aquilo que coloquei a mão para fazer. Tanto o bom quanto o "não bom" vivo intensamente. Não fujo de briga nenhuma e não postergo nada para depois. Falo o que preciso dizer, brigo com quem preciso brigar e resolvo o que precisa ser resolvido. Se hoje parece que sou privilegiado por algumas coisas que vivo é justamente o resultado de escolhas e de renúncias que tive lá atrás.


Sempre me questiono: se as pessoas conhecessem as minhas lutas diárias gostariam de viver a vida que eu levo?


A grama do vizinho quase nunca é tão verde quanto parece. A responsa, as cobranças, a pressão, as loqueadas para sustentar essa vida não passam pelos holofotes e estão resguardas pela intimidade de que só quem caminha perto e junto sabe.


Família, amigos, pacientes... Como eu sempre digo, um dia de cada vez. Sigamos juntos. Com calma, afeto, carinho e apreciando sempre a paisagem sem perder a delicadeza e a sensibilidade. E principalmente, sem atropelar os processos e o nosso ritmo. Preciso tanto de vocês quanto vocês precisam de mim. Afinal, a vida não é sobre isso? Sobre se acolher e cuidar um do outro!?


Querendo ou não, parecendo ou não, estamos todos na mesma empreitada e tentando, ao seu modo, sobreviver. 

  

Em 14/02/2024 - Por Rodrigo Stürmer

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Imaginemos o seguinte cenário. Você se relaciona constantemente com pessoas que não correspondem aos sentimentos que você deposita nas relações. Vive sempre meio que implorando e lutando para ser correspondido. O amor na sua vida tem sempre uma conotação de algo difícil, que exige batalha e um investimento quase sobre humano. Está cansado disso mas vira e mexe se pega na mesma situação. Quando encontra uma relação que lhe oferece aquilo que tanto deseja, que lhe é correspondida, parece algo meio "sem graça", como se não conseguisse sentir pela pessoa o que sentia pelas outras onde não era correspondido. Começa a achar que o amor está lá naquela pessoa (que me fazia sofrer) e não nesta, onde tudo é leve, espontâneo e natural.


Este é um exemplo de muitos casos que verifico na clínica todos os dias. Onde existe uma espécie de obsessão por aquele ser que não demonstra interesse em você. Isso não tem nada a ver com amor. Mas em ser e estar obcecado por quem demonstra desinteresse por você. A origem dessa compulsão por quem não corresponde aos sentimentos do outro, está na maioria dos casos ligada a situações infantis onde o amor pelos pais nunca era recebido de graça. Muitas vezes essas crianças se sentiam tendo que lutar para ter a devida atenção e afeto dos pais. Tendo que travar lutas mentais extremamente desgastantes para ter a sua vez junto aos pais. Muitas vezes as rivalidades entre irmãos também vem desse lugar, onde um acaba sendo preterido e privilegiado em função do outro. Isso deixa marcas profundas, se não tratado, na vida adulta e a pessoa pode acabar sempre se relacionando no padrão infantil de relacionamento, onde a ideia de conquistar aquele que não me quer acaba sendo como uma forma inconsciente de conquistar o amor dos pais da infância. 

  

Em 01/02/2024 - Por Rodrigo Stürmer

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Postei esse vídeo há um ano no meu canal e ele teve uma repercussão bem legal, chegando a quase 11 mil visualizações até a data de hoje. Em breve quero fazer a parte 2 e seguir falando desse assunto que muito me indigna e entristece.

Continua sendo muito repercutida, principalmente na área médica, a ideia errônea de que a Depressão é uma doença do cérebro. E assim como se fosse um vírus se instalaria de fora para dentro causando inúmeras disfunções. Isso não é apenas um erro absurdo, como uma mentira, uma espécie de preguiça científica de quem não entende absolutamente nada sobre a complexidade da condição humana.

Cada um de nós possui um "mundo interno" e que não é chamado de "mundo interno" por acaso. É esse mundo (interno) totalmente desconhecido pela grande maioria dos profissionais de saúde que faz com que o número absurdo de antidepressivos só aumente, ano após ano, e as taxas de depressão sigam na mesma toada, sempre aumentando.

O rumo que a vida tomou, as condições a que cada pessoa é submetida no meio em que vive, o tanto de vida que desperdiçou e que continua desperdiçando pelo meio do caminho é o que, normalmente, ditam se a vida vale ou não vale a pena, se tem ou não tem graça, se faz ou não faz sentido continuar vivendo. É sempre mais cômodo e fácil achar que a doença emocional que vivo não tem nada a ver com as atitudes e escolhas que tomei e continuo tomando.

No fim, Depressão é o nome que se dá para uma vida onde a não responsabilização sobre si chegou a um nível insustentável. E, graças a doença - que é sempre um alerta de que algo não vai bem - pode se tentar encontrar o caminho de volta, com a ajuda de um bom profissional (e não com os remédios, pois ele cronificam ainda mais o estado atual e não promovem a compreensão sobre as condições que fizeram as coisas chegar até aqui, justamente por produzirem um certo alívio sem alterar as condições de base).

Enfim, tudo isso para dizer que em breve vem vídeo novo falando sobre tudo isso. Aguardem.

  

Em 02/11/2023 - Por Rodrigo Stürmer

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Ele não existe para te agradar ou para ser como você imagina que ele deveria ser. E, ao mesmo tempo e ao contrário, não é o pic@ porque, supostamente, carrega os teus valores e por isso mereça ser vangloriado. Ele é simplesmente um outro que não tem nada a ver contigo e que independe absolutamente de você. Deveria ser óbvio, mas acreditem, na imensa maioria das vezes não é.  

Em 26/10/2023 - Por Rodrigo Stürmer

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Um bom pai/uma boa mãe é aquele/aquela que abdica do próprio desejo função do filho/filha? Gostaria muito de te ouvir nos comentários. 

Em 24/10/2023 - Por Rodrigo Stürmer

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Sinceridade não no sentido de falar mentiras ou de esconder algo, mas de falar tudo aquilo que lhe vier à cabeça, inclusive os possíveis desagrados em relação ao terapeuta e ao andamento do processo em si.  

Em 21/10/2023 - Por Rodrigo Stürmer

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PESSOAS QUE ESTÃO, SEMPRE, TENTANDO CHAMAR A ATENÇÃO

Por que e para que algumas pessoas precisam tanto chamar a atenção?

Respondo imediatamente: pela infância difícil que tiveram e pelo descaso quase completo, do ambiente em que viveram, em relação à elas.

Este tipo particular de pessoas está constantemente tentando fazer os OUTROS sentirem aquilo que um dia elas mesmo sentiram na relação com as pessoas mais próximas.

Na grande maioria das vezes não é algo consciente, mas que a pessoa repete na relação com os outros e que acaba por mostrar o tipo de relação que teve desde a infância, com os pais ou cuidadores.

Vou citar um exemplo.

Crianças que tiveram que usar de uma espécie de SEDUÇÃO para chamar a atenção dos pais para assim se sentirem cuidadas. Percebiam que se não seduzissem os pais, agradando ou fazendo algum tipo de “malabarismo” performático, não seriam sequer notadas no ambiente.

Na vida adulta, essas pessoas acabam utilizando o mesmo mecanismo e não é incomum irritarem muito as pessoas com quem convivem, pois estão o tempo todo tentando chamar a atenção das mais diferentes formas: atrasando compromissos, se utilizando de joguinhos nos relacionamentos (“será que chamo ou ele/ela chama?”, “demonstro que preciso ou me faço de durão/durona?”) etc.

Inconscientemente essas pessoas acabam produzindo no OUTRO o mesmo sentimento que os pais as fizeram sentir. Possuem um prazer (inconsciente e nunca admitido) de fazerem os outros esperarem por elas. Fazem as maiores “pirraças” como forma de mostrar ao mundo o desleixo a que foram submetidas, normalmente, na primeira infância.

É como se o tempo todo estivessem implorando AMOR ao mundo e pedindo a confirmação “será que você me ama mesmo a ponto de tolerar tudo o que eu faço?”.

O problema é que o mundo não é papai e mamãe e são poucas as pessoas “capazes” de ignorar a si mesmos para estarem completamente à disposição das necessidades infantis do SEDUTOR(A).

Todos nós temos a tendência de, vez ou outra, funcionar nesses moldes e fazer o OUTRO também sentir o que a gente mesmo sentiu (mas que não se lembra e nem se dá conta de que sentiu). 

Em 15/10/2023 - Por Rodrigo Stürmer

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POR QUE SENTIMOS VERGONHA?

Falando de forma clara e simples. A VERGONHA É UMA PREOCUPAÇÃO COM O QUE O OUTRO PENSA A MEU RESPEITO.

Três questões que gostaria de destacar aqui no que tange a  sentirmos vergonha em determinados contextos e/ou situações.


Quando nos sentimentos tímidos e com a sensação de estar dando “vexame” há sempre a convicção de estarmos sendo analisados e julgados negativamente pelo outro ou pelos outros ao nosso redor. 


Desde muito cedo aprendemos que existem certas condutas e comportamentos que são esperados de nós e quando temos a percepção que podemos não as estar cumprindo, sentimos vergonha. Vergonha por aquela imagem idealizada que acabamos criando (e que inicialmente foi exigida que tivéssemos).



Tudo aquilo que inicialmente fora exigido de fora (condutas, regras e comportamentos que os cuidadores passam para os filhos), posteriormente, passa a atormentar a pessoa de dentro. 


Ou seja, se meus pais me diziam para que eu não me intrometesse nos assuntos dos adultos quando criança, vou sentir uma vergonha danada todas as vezes que preciso me expor em público para emitir a minha opinião sobre determinado assunto. 


O sentimento de vergonha aqui tem a ver com essa exigência de uma suposta posição “correta” que eu deveria ter e que mesmo, conscientemente, eu sabendo que posso e devo emitir minha opinião, continua exercendo inconscientemente efeitos sobre o meu modo de agir, a ponto de eu não conseguir “desbancar” essa voz interna idealizada que me acompanha.



Obviamente, que precisamos nos adaptas às regras sociais. Ninguém pode sair por aí fazendo aquilo que bem entende ou sente vontade. Pelo menos não naquilo que se refere a violar o direito e os limites das outras pessoas. 


No entanto, isso não é verdade quando nos referimos a comportamentos que dizem respeito a condutas subjetivas que uma pessoa tem. 


Como no caso do exemplo que citei, não deveria ser verdade o fato de uma criança não poder se “intrometer” na conversa de adultos. 


Ok, existem assuntos que ela não deveria participar, mas a mensagem clara que é passada nessa frase é que ela NUNCA deveria participar da conversa de adultos. E isso não é uma verdade que deva ser levada em consideração. 


Logo, quando começo a desconstruir algumas das exigências sociais que me foram impostas, através dos valores familiares, posso ir modificando essa noção de “certo” e “errado”, que carrego dentro de mim, que acabam por balizar como eu deveria agir (e reagir) e a própria imagem que tenho a meu respeito.

 

Acho bastante interessante aqui trazer as noções de anomia, heteronomia e autonomia, bastante utilizadas pela pedagogia. 


A primeira (anomia) diz respeito a fase de amadurecimento onde a criança não tem internalizado ainda nenhum tipo de regra social (não tem a noção de certo e errado). A segunda (heteronomia) é quando a criança já tem uma percepção do que o mundo social espera dela. A terceira é quando se tem claramente a noção do que a pessoa pode e não pode fazer e isso é claramente respeitado, sendo que a criança age se baseando por isso. 


Segundo estes conceitos, o sentimento de vergonha estaria associado ao não cumprimento dessa postura, que é esperado que uma pessoa tenha. Ou seja, quando me comporto de maneira inadequada às regras que estabeleci, me sinto envergonhado.

 

Na psicanálise a gente entende que essa posição de “autonomia” adquirida pela pessoa, no cumprimento daquilo que se espera dela, pode ser facilmente pensada como imaturidade. Já que uma verdadeira autonomia e independência estaria muito mais relacionado aquilo que a pessoa é capaz de fazer ouvindo o seu próprio desejo, não se balizando simplesmente em relação ao que o mundo espera dela (não confundir “desejo” com “eu posso tudo e f0d@-se o mundo”).


Obs: quando a psicanálise fala em Desejo significa que ao permanecermos TOTALMENTE alienados ao desejo do outro acabamos abdicando da nossa própria potência de SER e ESTAR no mundo. Conhecer a si mesmo é no fundo se (des)conectar daquilo que o outro espera de mim para que eu possa pensar e reconhecer o que eu mesmo, verdadeiramente, espero de mim. 


Aí sim podendo bancar isso sem vergonha alguma.

 

Ou seja, a saída da "vergonha" é eu poder afirmar cada vez mais o que de fato eu quero e desejo, abdicando daquelas exigências sociais que não estão compatíveis com o meu modo de ser. Quando estas exigências não mais exercem poder sobre o que eu sou (ou exercem menos poder, porque nunca nos livramos completamente disso) a questão do “certo” e “errado” perde a força e não sou mais tentado a me adaptar constantemente ao olhar idealizado do outro em mim.

Em 08/09/2023 - Por Rodrigo Stürmer

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VIVER

Assisti ontem um filme lindíssimo. Daqueles que dá uma alegria danada do tipo “finalmente, uma escolha decente e não duas horas perdidas”.

QUAL O SENTIDO DA VIDA?

Tá aí um tema que me inquieta. E no qual a filosofia e a própria psicologia se ocupam desde que o mundo é mundo.

Pensar sobre o sentido da vida, sobre as coisas que valem a pena, sobre o que de fato torna a vida apreciável e boa de ser vivida, me encanta muito.

O que é ter (e o que fazer para ter) uma vida boa é uma temática que me motiva mais do que deveria. Poderia perder horas e dias de sono refletindo, pensando e ouvindo sobre.

“Coincidentemente”, depois de devorar o belíssimo “O sentido da vida” do Contardo Calligaris (escrito momentos antes do seu falecimento) me deparo com este filme e, sem pensar, também o devoro (incrível como não há duvidas sobre as coisas que verdadeiramente nos tocam).

Poderia citar várias coisas aqui que me encantaram no filme, mas isso cada um precisa ver e sentir por si só (e para isso só assistindo mesmo). Mas vou falar especificamente de uma (e que tem em comum várias obras sobre o assunto) e que deixaram marcas profundas em mim (e que tratam da mesma temática): a simplicidade de uma vida atenta aos pequenos detalhes do cotidiano. E quando se perde isto se perde tudo.

Um pequeno resumo do filme: o cara passa o dia todo enfiado num escritório com colegas de trabalho, vivendo totalmente no automático, sem sequer levantar o rosto da papelada. Ao se deparar com uma doença terminal a vida se ressignifica completamente.

Eu sei que esses temas sempre podem soar teóricos demais e quase ninguém se preocupa em pensar sobre a morte. Mas aí que tá, porque pensar sobre a morte é pensar sobre a vida que vivemos (ou não vivemos).

Estamos vivendo de fato? Somos mortos vivos (zumbis) correndo atrás sabe-se lá do que e para quê? Estamos nos responsabilizando sobre o rumo que a nossa vida está tomando (ou somente deixamos "fluir", burocraticamente, no automático)?

Essa é uma resposta que cada um deve buscar por si mesmo e que só pode ser encontrada na própria vida e na própria singularidade de cada um. Mas são perguntas subliminares que o filme coloca.

Vou deixar aqui algumas obras literárias que ao longo da vida tem me despertado cada vez mais a busca por uma vida o mais boa e gostosa possível de ser vivida. Ao escrever este texto, por exemplo, me sinto extremamente vivo, criativo e motivado. Este, no meu jeito, da minha forma e na minha singularidade é uma das maneiras que tenho encontrado para dar sentido e significado a tantas coisas.

Ei-las: A morte de Ivan Ilitch (Tolstói), As coisas da vida (Paul Guimard), Bartleby, o escrivão (Herman Melville), O último dia de um condenado (Victor Hugo), O sentido da vida (Contardo Calligaris).

É engraçado. Quanto mais você toca na vida, mais a vida toca em você. E isso, por mais bacana que seja, não exclui a dor. Não dá para viver as alegrias se não se estiver aberto para experimentar boas tristezas.


Em 26/08/2023 - Por Rodrigo Stürmer

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VOCÊ FAZ PSICOLOGIA PARA SE CURAR?

Não são poucos os alunos que iniciam na graduação em psicologia para tentar se livrar de suas mazelas emocionais.

Acreditam que através do conhecimento intelectual, da racionalidade, do entendimento mental seriam capazes de controlar aquilo que sentem, aquilo que lhes faz mal.

Este é um grande equívoco!

Não por acaso vivemos uma era onde abundam soluções de cursos de desenvolvimento pessoal e inteligência emocional com a mesma promessa: apropriação intelectual dos afetos.

Ou seja, aprende-se, conhece-se, racionionaliza-se para evitar que se sinta!

SENTIR.

6 letrinhas que atemorizam a maior parte das pessoas.

Ah como seria bom se a gente não sentisse nada, né?

Quanto sofrimento seria evitado, não é mesmo?

Quantas dores não precisariam existir...

NÃO, absolutamente NÃO!

O desejo de não sentir, de intelectualizar, de racionalizar por si só já fala de algo vivido (e dolorido) e que a pessoa tem um medo danado de novamente entrar em contato.

É nesse sentido que a busca por algo mais "confortável", digamos assim, acaba sendo utilizado como saída.

O problema é que a saída não está na mente, aliás, já foi esta justamente a defesa utilizada para não sentir mais.

Pensar, para não sentir, é um dos artifícios mais utilizados desde que o mundo é mundo para escaparmos de nós mesmos e das nossas questões mais fundamentais.

Se enfiar na universidade, se tornar um cientista comportamental racionalista top, pode ser uma saída encontrada, mas que não resolve (e não cura) absolutamente nada.


Em 11/08/2023 - Por Rodrigo Stürmer

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O CASAMENTO É UM "BOA" DESCULPA PARA A NOSSA COVARDIA NEURÓTICA

Casa-se por diversos motivos. E o amor quase nunca é o mais óbvio deles.

Casa-se, inclusive, por covardia.

Covardia de se responsabilizar pela própria vida e pelo próprio destino.

"Se não fosse a minha mulher eu poderia ser um grande cara, ela me poda o tempo todo".

"Se não fosse o meu marido eu poderia ser uma pessoa super pra frente, teria feito faculdade e tudo".

"Se não fosse pelos nascimento do meu filho eu teria me tornado uma super gerente da loja onde trabalhava".

Estas e outras frases são extremamente comuns de serem ouvidas no cotidiano de todos nós.

É o casamento que impediu a pessoa de alcançar o que gostaria ou é a incapacidade de afirmar o próprio desejo que precisou do casamento como justificativa?

É sempre mais confortável escolher alguém para colocar a culpa. A culpa, normalmente, é sempre do outro.

Um início de terapia passa necessariamente pela responsabilização dos rumos que tomou a própria vida.

Quando os queixumes não se dirigem mais para os outros, mas se voltam para si mesmo, é que um verdadeiro trabalho poder vir a acontecer.


Em 07/08/2023 - Por Rodrigo Stürmer

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BÓRA NATURALIZAR OS ERROS!?

Tenho acompanhado o desenvolvimento maturacional de alguns jovens que estão tentando se tornar jogadores de futebol. 

Entre uma rotina incessante de estudos, treinos, testes e competições me entristece muito, nesse processo dos garotos, a falta de preparo de alguns professores e treinadores.  

Muitos acabam por desistir dos seus sonhos em virtude de tamanha pressão e cobrança diante de TER QUE passar no teste, TER QUE fazer o gol, TER QUE dar o passe certo, TER QUE acertar o drible, etc etc e tal.  

Tenho trabalhado constantemente com esses garotos no sentido oposto: o de NÃO TER QUE NADA! 

PODE SIM, perder o gol. PODE SIM, errar o pênalti. PODE SIM, FALHAR, ERRAR! 

Antes de uma busca incessante (e cega!) por se tornar um jogador de futebol é preciso se tornar homem! 

E homens, seres humanos, falham, erram o tempo inteiro.  

A única possibilidade de que esses jovens de fato possam vir a se tornar aquilo que tanto desejam (se é que de fato assim o desejam verdadeiramente) é com a tranquilidade e a espontaneidade de brincarem, se divertirem.  

A probabilidade de fazer um gol, acertar um drible ou um passe, aumenta vertiginosamente quando não se está preocupado com o erro.

Se é o erro que está tomando conta da energia psíquica de uma pessoa, se é isto que ela está temendo, é isto que, provavelmente, vai acontecer.  

Em um mundo competitivo e predatório como o nosso, onde a única coisa que importa é vencer e prosperar (custe o preço que for) sonhos de jovens púberes são castrados antes mesmo de poderem ser verdadeiramente desejados. Transformando-se, não poucas vezes, em traumas que serão levados para a vida toda.

Gostaria que vocês pudessem ver o semblante de alívio e de espanto quando digo para esses jovens “ERREM À VONTADE, ERREM O QUANTO PUDEREM, MAS NUNCA DEIXEM DE TENTAR! MESMO QUE ISSO CUSTE A DERROTA OU A NÃO APROVAÇÃO EM UM DETERMINADO TESTE". 

Afinal, essa é ou não é a única possibilidade de sermos genuinamente bem sucedidos (seja lá o que isso significa) naquilo que fazemos? 


Em 27/06/2023 - Por Rodrigo Stürmer

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CONTRA O MUNDO

Não são poucas as crianças que ouvem de seus cuidadores a seguinte frase: "você parece que é contra o mundo mesmo".


Normalmente ela é pronunciada quando a criança comete alguma ação que vai contra aquilo que é esperado dela socialmente.


Eu, por exemplo, ouvi muito isso. Parece que sempre existiu em mim uma tendência a não se enquadrar aos padrões estabelecidos.


Era o cara que não curtia ir para a escola; que não gostava de trabalhar com horários pré estabelecidos (meu primeiro emprego foi na madrugada); não curtia muito sair de casa e fazer os programas que a maioria da galera fazia; com 15 anos resolvi tocar bateria (montei uma banda de rock na garagem e enlouquecia todo mundo - continuo fazendo barulho e incomodando, só que de outro jeito); depois fui tentar ser jogador de futebol (e quase consegui); nunca achei que conseguiria me formar no ensino médio (sempre achei o método de ensino a coisa mais non sense do mundo) e acabou que me enfiei em duas faculdades e três pós-graduações.


Enfim, a coisa de ser "contra o mundo" me acompanha e me acompanhará para todo o sempre.


Na sua ingenuidade, de querer que os filhos sejam "como todo o mundo", muitos pais acabam por reprimir e retirar a espontaneidade dos filhos.


Ser "contra o mundo" significa, em bom português, o seguinte: mantenho vivo em mim a originalidade e a espontaneidade inerentes ao meu modo de ser!


Gostando ou não, "não ser como todo o mundo" pode ser o maior elogio, disfarçado de crítica, que se pode receber.


Mantenham as nossas crianças sendo "contra o mundo", please.


Quando, em Psicanálise, falamos de Desejo não estamos nos referindo ao puramente sexual, mas àquele fogo que arde dentro de muitos e que não há padrão ou tratado social que dê conta de inibir.


E que assim seja.


P.S. Um texto "contra o mundo" de um "contra o mundo" para todos aqueles que não se encaixam muito bem nesse mundo.


Em 16/06/2023 - Por Rodrigo Stürmer

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OS OPOSTOS SE ATRAEM

Sempre me soou esquisita a afirmação de que os opostos se atraem.


Me parece mais lógico pensar que os opostos traem a si mesmos, ao tentar uma união, um laço, que exige a compreensão e paciência de tantas diferenças.


Por que vou decidir por me afiliar a alguém que prefere sertanejo ao bom e velho rock n roll? Qual o sentido de estar com alguém que prefere ficar em casa aos sábados à noite ao invés de estar “fritando” na balada? Tem lógica se juntar a uma pessoa que não quer ter filhos sendo que eu os desejo tanto?


Estes são alguns exemplos de oposições no casamento que me parecem inconciliáveis. O problema é que no amor a razão exerce um poder bastante modesto nas nossas “escolhas” amorosas.


Coloco a palavra “escolha” em aspas justamente para enfatizar a irracionalidade do amor. A gente não escolhe e nem decide as nossas paixões. À mente é reservada um lugar de coadjuvante nessa história toda.


Quem escolhe um casamento com a cabeça, de ato pensado, o faz por mera conveniência, por mera formalidade, transformando uma união amorosa em um negócio, deixando, obviamente, a vida um tanto mais pobre.


No entanto, mesmo sabendo desse aspecto irracional, precisamos sempre nos haver com as nossas escolhas, inconscientes ou não. Aqui, a velha máxima que tanto ouvimos na clínica “só se foi o meu inconsciente” não pode ser justificativa. Precisamos nos responsabilizar por nossas “escolhas” e decisões, seja no nível em que for.


Ao decidir estar num relacionamento que me força constantemente a abdicar dos meus desejos é preciso se perguntar: por que PRECISO de um relacionamento que me faz constantemente frustrado(a)?; o que em mim PEDE a constante proibição de minhas vontades?; por que não POSSO ter alguém que seja mais parecido comigo, que compactue com as minhas vontades e desejos?


Não se trata aqui de imaginar utopicamente um relacionamento perfeito, de intolerância às diferenças de cada um, mas sim desmistificar essa frase que caiu no senso comum como uma verdade absoluta.


Penso que ao nos defendermos na ideia apaziguadora de que “os opostos se atraem”, como forma de justificar as nossa más escolhas na vida, estejamos TRAINDO A NÓS MESMOS. 


Em 30/04/2023 - Por Rodrigo Stürmer

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UM SALVE AOS FRACASSADOS!

Todos os dias somos bombardeados, por todos os cantos, pela ideia errônea de que podemos ser aquilo que almejamos. Em bom e velho psicanalês: de que não há limite para o nosso desejo!


Basta você se esforçar, se dedicar, fazer mais do que os outros, que é batata, o futuro a você pertence.


Quem de nós não ouviu, quando crianças, de que se fizessemos tudo certinho, como manda o figurino, tudo daria certo. Seríamos excelentes profissionais, pessoas “de bem”, teríamos um casamento de dar inveja nos outros, casa própria, carrão na garagem, uma vasta gama de amigos e segue a lista.


O problema é aquilo que não nos falaram: de que a vida não segue script, que nem sempre (ou quase nunca) os nossos esforços são recompensados como gostaríamos, de que a maioria das variáveis nós não controlamos, de que a vida é extremamente injusta na maioria das vezes, e, principalmente, que nós não somos os "bambambans" da parada.


Chego a suar frio quando vejo esses vídeos motivacionais de pseudoterapeutas ensinando sobre auto-estima, sobre como viver uma vida de paz.


Auto-estima, Paz?


Olhem para um gatinho. Trancado a vida toda dentro de uma casa, tudo reduzido a quatro paredes, miando quando falta água e ração, e dormindo boa parte do dia. Este é um ser que vive em paz e com auto-estima, pois além de tudo girar em torno de si mesmo, não precisa nem lutar para sobreviver. Ele sim se sente o "bambambam" da parada e não tem motivo algum para se preocupar e menosprezar.


Agora, exigir de uma pessoa que ela tenha que se sentir bem consigo mesma, gostar do seu jeito de ser, apreciar a si mesma, ter auto-estima, é uma balela sem tamanho. Isso é algo que está em contraposição à condição humana!


Somos seres de desejo, faltantes, insatisfeitos por natureza. Nós nunca cessamos de querer mais e mais. Nós não nos acomodamos, independente de quem diga que precisaríamos. E é justamente isso que faz o mundo girar; por isso que prédios são construídos, cidades transformadas, que a vida e o mundo permanecem em movimento.


Todas as semanas recebo e-mails de uma plataforma de marketing digital me dizendo o que eu deveria fazer para que meu e-book vendesse mais. De que por não fazer X, Y e Z estou deixando de vender tanto. Será que o fato do meu e-book não vender mais do que ELES ACHAM que deveria, não significa que ele simplesmente é uma porc@ria ou não tão bom quanto DEVERIA (deveria para quem? diga-se de passagem).


Eu acho, de verdade, que é chegada a hora de nos darmos a devida (POUCA) importância que de fato temos. É justamente por todo mundo se achar bom demais e merecedor demais que vivemos pisando um no pescoço do outro. Querendo um ser melhor do que o outro.


Como um dia respondi, para espanto de um paciente, que afirmava ser imbecil, fracassado e incompetente: EU ACREDITO EM VOCÊ (transmitindo a dúbia mensagem de que acreditava na incompetência dele, mas que apesar dela também acreditava na sua capacidade de conquistar as suas coisas na vida). É um erro tentar convencer alguém de que ela é o oposto daquilo que acredita ser. 


Em 28/04/2023 - Por Rodrigo Stürmer

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DEUS [NÃO] ESTÁ MORTO!

(INDICAÇÃO DE FILME)

Falar em Deus na atualidade parece que virou sinônimo de breguice.

O mundo, cada vez mais, se tornou lugar da Razão. Quem sabe e quem tem voz são os universitários, os pesquisadores, os cientistas. Preferivelmente, ateus.

Na célebre afirmação "se Deus está morto então tudo é permitido", Dostoiévski tentou alertar ao mundo dos perigos de se viver sem uma moral e um Deus superior que policiasse as condutas humanas.

A atéia psicanálise ortodoxa freudiana, concebe que não necessitaríamos de nenhuma entidade divina externa que regulasse a nossa moral, já que ela dependeria exclusivamente da internalização dos valores que nos foram repassado por nossos pais. 

Quem tem razão? Os que acreditam que tudo deriva de uma providência superior? Ou quem acha que é o próprio indivíduo que está no cerne e no controle do seu destino?

Eu, humildemente, busco uma forma de conciliar as duas visões dentro de mim.

O filme, disponível (e esquecido) na Netflix, apesar de não ser nenhuma obra prima, trás importantes reflexões sobre o tema e escancara o quanto pode ser perigoso nos afiliarmos à posições extremistas e que acabam nos cegando perante a realidade.

Em uma coisa Freud tinha razão, a gente sempre justifica nossas escolhas em detrimento das nossas dores e sofrimentos pessoais.

É o caso clássico daquele ateu convicto que faz o mais sermão odioso contra Deus, mas que fica sem nenhuma resposta ao ser indagado como pode odiar tanto assim alguém que não existe...

E que ao final assume: "Deus me tirou tudo de mais precioso que eu tinha..."

Por essas e outras que tenho sempre o maior respeito e cuidado com a fé - ou falta dela - na vida de qualquer pessoa.

Precisamos muito discutir esse assunto, e me parece que cada vez mais ele se faz necessário diante do mundo em que vivemos, mas sempre com o respeito e a seriedade que ele merece.

Me conta aqui nos comentários o que você pensa sobre essa questão.


Em 23/04/2023 - Por Rodrigo Stürmer

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VOCÊ JAMAIS VAI OUVIR ALGUÉM DIZER ISSO POR AQUI...

Preciso ser honesto com quem me acompanha por aqui, pois tem sido cada vez mais difícil produzir conteúdos. Assim como tem sido cada vez mais intragável simplesmente estar por aqui.

As redes sociais, no geral, são um convite, cada vez mais, à superficialidade, ao marketing, à vendagem de si mesmo. Como se, cada ser humano, passasse a ser, sem sequer se dar conta, um produto que estivesse sendo comercializado.

Tenho refletido muito sobre os caminhos que desejo seguir e o quanto estou disposto a me colocar como produto. Quais as consequências de entrar nessa onda de postagens, seguidores, lives, marketing e por aí vai? Qual o custo e o reflexo de tudo isso na minha saúde mental e na minha paz interior?

A sensação que tenho é que sequer paramos para refletir que estamos nos vendendo, o tempo todo, a preço de banana. Mesmo quem não vende produto nenhum está arcando com o tempo precioso de uma vida...

É a vida dos outros, num looping infinito, mensagens e textos que estão sempre nos orientando sobre determinados aspectos das nossas vidas e assim seguimos presos, escravos dos algoritmos, direcionando-nos para aquilo que melhor lhe convém.

Falamos tanto de bournot, de diminuir o ritmo, de pegar leve, mas adoecemos, cada vez mais, pela busca incessante de como vir a conseguir isto. Cansamos buscando saídas estratosféricas para melhorar a vida, mas não nos damos conta que estamos amarrados e sendo dominados por todo esse arsenal tecnológico capitalista.

Precisamos entender que não tem jeito, ou você opta por pagar o preço ou você banca essa maluquice toda e bóra lidar com as consequências. Não dá para ter o mínimo de saúde e paz, tendo que ser o melhor em tudo o tempo todo, não podendo falhar nunca, sendo um influenciador digital pica, bom pai, bom filho, bom marido, bom profissional, bom estudante etc.

Não dá para ter grana, a casa e o carro dos sonhos e pegar leve no trabalho. Ou você opta por ter menos grana e pegar leve ou você opta por ir atrás de mais grana e pagar com as consequências de uma vida tumultuada.

O que é certo e o que é errado? Essa conta é de cada um.

Falando por mim, alguns anos atrás eu atendia em um dia o número de pacientes que atendo hoje em uma semana. Tinha dias que dava, até três, palestras no mesmo dia. Atualmente faço uma que outra no mês. Para alguns, isso poderia ser sentido como sinônimo de fracasso, de estar retrocendo. Para mim, é um grande privilégio ter compreendido que dá para viver com beemm menos. Tem consequências desagradáveis? Claro que tem. Mas o ônus tem sido menor que o bônus.

Mas isso, com certeza, não vende nas redes. Esse discurso ninguém compra. E por isso você jamais vai ver alguém propagar isso por aqui.


Em 17/04/2023 - Por Rodrigo Stürmer

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POR UMA PSICANÁLISE AO ALCANCE DE TODOS

Para quem tem o desejo de ir ao encontro de suas mazelas e fantasmas

Na bio do meu instagram consta a seguinte frase: “Por uma Psicanálise ao alcance de todos”. Sei que no contexto psicanalítico discute-se muito sobre para quem de fato se destina um tratamento psicanalítico. A grande maioria dos colegas defende que ela estaria restrita a uma pequena parcela da população. A justificativa aqui, ao contrário do que muitas pessoas pensam, não se resume ao financeiro, mas ao Desejo, aquele “comichão” interno que “assola” algumas pessoas e outras, não. Sem ele nenhum tratamento psicanalítico, teoricamente, seria possível de ser realizado. Afinal, é preciso ter a vontade, o desejo, a disposição de cavoucar dentro de si para ir ao encontro de nossas mazelas e fantasmas.

Concordo com esse posicionamento em partes, pois tendo a pensar que sim, todo mundo poderia se beneficiar de um tratamento psicanalítico, mesmo que inicialmente não pareça haver um Desejo manifesto (até porque ele nem sempre o é) naquele que chega até os nossos consultórios. Nesse sentido, uma frase do psicanalista inglês Donald Winnicott sempre guia o meu trabalho diante de um paciente: “quando um paciente precisa de análise eu faço análise, quando ele precisa de outra coisa eu faço outra coisa”. 

Dias atrás estava de férias no litoral e decidi publicar uma foto nos meus stories. Depois de algumas cervejinhas nossa espontaneidade costuma se sobressair diante de um superego muitas vezes opressor. Era uma foto simples, mostrava apenas o meu rosto, com a minha cabeça ligeiramente flexionada para a esquerda e um leve sorriso nos lábios. Dificilmente costumo postar fotos pessoais, sou muito reservado nesse sentido. Mas naquele momento fiquei com vontade e postei. E ainda, de lambuja, coloquei um filtro colorido na foto, simulando uma espécie de raios de cor roxa.  Não demorou muito para algumas mensagens pipocarem no direct. Apareceu de tudo. Amigos “zoando” que “essa coca é fanta” (insinuando uma possível homossexualidade), colegas psis julgando não ser legal expor intimidades em uma rede social profissional (como se a vida se resumisse apenas a ser terapeuta), e pacientes impressionados que a “fantasia” do psicanalista que dorme e acorda sempre impecável houvesse caído. 

Por que estou contando essa historinha? O que tem a ver uma coisa com a outra?

Penso que essas condutas (a minha ao publicar a foto, a dos amigos “zoando”, dos colegas criticando, e dos pacientes “assediando”) falam muito do quanto carecemos de análise. Confesso que não passei incólume às reações das pessoas. Quando percebi a repercussão de uma simples foto despretensiosa, imediatamente fui tomado de uma culpa injustificável. Me senti mal, incomodado. Depois de algum tempo e tendo em vista um repertório de alguns anos de análise pessoal fui colocando as coisas no seu devido lugar e a culpa foi abrandando. Mas fiquei me questionando: e se fosse outra pessoa? Quantas vezes isso não deve acontecer com as pessoas mundo à fora, nos “instagrams” da vida? O que as pessoas costumam fazer com isso? Levam para onde? Fazem o que disso? 

"Fiquei pensando o quanto deve ser horrível não ter um lugar de acolhimento para destinar, compreender e elaborar as vivências diárias, tão intimas, particulares e tão mais terrível quanto a repercussão de uma simples foto em uma rede social (o meu exemplo soa ridículo frente aos inúmeros problemas graves que muitas pessoas vivem)."

E essas pessoas que pré-julgam, criticam, apontam, são preconceituosas, o que elas fazem com tudo isso? Isso simplesmente cai no vazio, sem maiores entendimentos e compreensões? Isso só vai sendo repassado para os filhos, para os netos, e assim por diante? E assim vamos formando uma sociedade alienada, ignorante, desrespeitosa e vida que segue? Assim vamos elegendo líderes que representam exatamente estes valores que estão incrustados em nosso inconsciente? 

Desculpem-me, caros colegas, mas não consigo conceber a ideia de que a nossa querida psicanálise seja apenas para uma parcela restrita da população. Desejo o dia em que ela seja matéria obrigatória no ensino de todas as escolas de nosso país. Para que as crianças, desde cedo, compreendam a importância de trazerem à consciência aquilo que muitas vezes soa como normal, sem maiores consequências e repercussões. 

"Tornar o inconsciente, consciente é o trabalho para uma vida. Por alguém deveria ser privado disto? Por uma Psicanálise ao alcance de todos!"

*Texto produzido para o Grupo Bandeirantes de Comunicação.


Em 11/03/2023 - Por Rodrigo Stürmer

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BIEL, O HOMEM QUE RESPEITAVA AS MULHERES

Gabriel, conhecido carinhosamente por Biel, sempre foi um gentleman. Respeitador, fala mansa, sensível, poético e, por incrível que pareça, nunca se deu muito bem quanto a conquista de mulheres.

Como sempre foi de sua índole ser extremamente sincero e transparente em relação as coisas que sentia e pensava, acabava não sendo levado a sério ou sendo sacaneado por agir pelo coração.

Era bastante comum tirarem sarro dele quando ao chegar em uma menina, na qual estava interessado, e perguntar: "posso te dar um beijo?"

Como ele nunca entendeu muito bem como funcionava os joguinhos dos ficantes (e nem fazia sentido para ele roubar o beijo de alguém sem o seu consentimento) ele acabava por perder boas oportunidades.

Mesmo mulheres que estavam interessadas em ficar com ele julgavam a sua atitude desprovida de qualquer charme, coisa nada semelhante a maioria dos homens que se posicionavam diante delas de maneira sedutora e misteriosa, sempre escondendo o jogo.

Elas eram acostumadas (e gostavam) de serem pegas "à força", para que não desse a sensação que elas estavam afim do cara.

O legal era ter a sensação de que o seu desejo não era aquele, mas que foram seduzidas e não suportaram a sedução do homem galanteador e irresistível.

Esta poderia ser apenas uma narrativa fictícia, mas ela ocorreu em rede nacional.

Abomino completamente a atitude dos eliminados do programa, concordo inteiramente com a eliminação, mas só quero deixar aqui o lembrete de que a partir do momento em que as mulheres poderem se haver com o seu próprio desejo coisas desse tipo cada vez menos tenderão a acontecer.

Vivemos numa sociedade que incentiva a postura histérica e sedutora, onde é sinal de decência e força esconder e mascarar o próprio desejo, ainda mais quando se é mulher.

A partir do momento em que se é aplaudido homens babacas "conquistadores" e "vaiados" homens gentis, sentimentais e transparentes tendemos a cair na roubada de confundir alhos com bugalhos.

Não será uma eliminação que vai corrigir a rota de uma sociedade machista; ela parte prioritariamente pela liberação do desejo feminino que vive dentro de cada mulher.

Bielzinho ensinou o que é ser homem.


Em 18/03/2023 - Por Rodrigo Stürmer

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BURNOUT: A SÍNDROME QUE VIROU MODA

Viraram moda os diagnósticos de Burnout. É um nome bonitinho que se dá para quem vive fugindo de si mesmo.

Em um mundo onde se trabalha mais do que se devia (e se suporta) não é incomum a sensação de esgotamento em grande parcela da população. E, cada vez mais, tem se buscado remediar esta sensação.

É como se a pessoa dissesse: "eu não quero diminuir o ritmo, eu quero continuar e aumentar cada vez mais o ritmo sem me sentir esgotada".

Utiliza-se assim o trabalho, o estar em atividade constante, como meio de ludibriar a si mesmo, como forma de não se entrar em contato com coisas desagradáveis da própria vida. Coisas que assolam o sujeito no seu mais íntimo, no fundo de sua alma.

Gosto de utilizar, para isso, o termo "defesa maníaca". A pessoa vai utilizando de defesas para se manter afastada do que causa sofrimento e dor.

No dia a dia, na rotina diária, vai estabelecendo um tipo de comportamento reativo ao seu real estado de humor interno. Quem vê a pessoa jura que ela está super bem, produzindo um monte, sempre alegre, confiante e feliz.

Mas no seu íntimo o sentimento é oposto.

Ao chegar em casa, depois de um dia todo, é frequente a sensação de incompetência, desvalia e uma tristeza que norteia sempre os momentos de solidão.

Me preocupa, sempre, o excesso de medicalização como meio de ocultar dores profundas.

A pessoa sempre precisa se defender proporcional ao tamanho da dor que carrega. Se os diagnósticos de Burnout são cada vez mais frequentes e comuns poderiamos concluir que vivemos cada vez mais adoecidos emocionalmente? Cada vez mais reativos a nós mesmos?

Para aqueles que desejam, de fato, resolver essa questão e se reencontrar consigo mesmo, sugiro o caminho de volta, o retorno para si mesmo. É preciso parar a correria, se voltar para dentro e buscar a ajuda de um profissional qualificado que lhe auxilie nesse difícil processo de encontro consigo.


Em 10/03/2023 - Por Rodrigo Stürmer

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SOBRE O BBB 23... E SOBRE SER BESTA

Fui dormir ontem passado das duas da manhã, assistindo ao BBB. E muito P da vida comigo por ter me deixado ludibriar pelas discussões dos participantes e pelo desenrolar infinito de conversas e estratégias que os participantes do programam iam intercalando nos argumentos. 

É simplesmente impossível desligar a TV depois que você é capturado pela lógica do programa. Tudo é estrategicamente pensado para você não ter outra opção a não ser estar ali, fixado. Ele toca no mais fundo de nós, em lugares da nossa alma que na maioria das vezes desconhecemos, mas que imediatamente são despertadas diante de situações externas extremas.

E o BBB é um programa que se propõe a isso; um laboratório humano com o intuito de despertar o pior do ser humano e colocar outros milhões e bilhões aficcionados assistindo o circo pegar fogo. Foi impossível não lembrar da obra "O ultimo dia de um condenado", de Victor Hugo, que narra os tempos em que pessoas eram enforcadas em praça pública e era a maior diversão para todo mundo; as praças ficavam lotadas para assistir ao “espetáculo”.

É mais ou menos assim com o BBB. Lá, ninguém é sacrificado em praça pública (ninguém pode agredir ninguém, pois é eliminado se isso acontecer) mas a violência é escancarada o tempo todo das mais diferentes formas. Vou citar apenas um exemplo que para mim é o pior e mais absurdo de todos: festas chiquérrimas com fartura de comida, que custaram o olho da cara, enquanto milhões passam fome aqui fora.

Diversas pessoas já me falaram “você como psicólogo não pode deixar de assistir, pois é uma aula de comportamento humano”. Queridos, sabe o que é uma aula de comportamento humano? Pessoas tendo que sobreviver nas piores condições em periferias por todo o país, pais tendo que sustentar famílias com meia dúzia de filhos ganhando um salário mínimo, pessoas tendo que abdicar de valores pessoais preciosos para dar conta de conviver em uma sociedade que desautoriza completamente qualquer valor ético e moral, e assim por diante. 

Nossas clínicas estão repletas de gente que sofre pelas hipocrisias e incoerências do mundo moderno. É cada vez mais difícil sobreviver diante de tamanha insensibilidade. E quem é sensível sofre tanto!

Somos humanos, falhos, suscetíveis, frágeis. E por isso, se hoje eu ligar a TV provavelmente vou ser capturado da mesma forma e esta será só mais uma fala hipócrita que também cairá no vazio.

Vivemos num tempo em que precisamos ser entretidos por um programinha de gente famosa, que nunca leu um livro na vida (como confessou uma participante), já consolidada financeiramente, que são chamadas de heróis (ou que assim são consideradas por muitas pessoas), enquanto aqui fora o bicho pega para todo mundo.

O quanto precário estamos a ponto de nos deixarmos levar e induzir por isso? A ponto de passarmos a semana introduzindo em nossos discursos a balela que o programa nos oferece? ("Se sai este, se sai aquele? O jogo que este está fazendo é correto e do outro é errado...").

O quanto fútil e superficial é tudo isso, meu Deus. Perdõem-me a expressão, mas somos, realmente, uma tropa de alienados.

No fim, o que a gente mais adora é ver o circo (dos outros) pegando. Morremos de tesão, nos deliciamos, em ver os outros extravasarem aquilo que, com muito esforço, mantemos reprimido.


Em 06/03/2023 - Por Rodrigo Stürmer

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A BANALIZAÇÃO DO CUIDADO DE SI

Vez por outra ainda se ouve por aí coisas do tipo: "psicólogo é coisa pra gente maluca", "depressão é coisa de gente que não tem o que fazer", "pedir ajuda é coisa de gente fraca" etc.

Não por acaso os dados mostram como anda a saúde mental do brasileiro.

É importante mencionar que quando falamos em "saúde mental" não se trata somente daqueles quadros de adoecimento emocional. Mas, principalmente, sobre a capacidade de lidar com os próprios sentimentos, de pensar sobre a própria vida, de cuidar de si e de se priorizar, de estabelecer uma rotina de vida que leve em conta necessidades e desejos, e que tenham a ver com o modo de ser de cada um.

Sabe aquela ansiedade, aquela angústia, aquela raiva, aquela correria que você vive todos os dias, mas que vira e mexe deixa de lado e prefere não se ocupar?

Sabe aquela conversinha interna que você tem consigo mesmo dentro da sua cabeça, e que na maioria das vezes é recheada de preocupações, negativismo e autodepreciação?

Então, é sobre tudo isto!

Desejo e espero o dia em que a ida aos consultórios de psicologia será tão rotineira quanto a busca por outros profissionais da saúde.

Afinal, é ou não é a cabeça que comanda todo o resto?


Em 02/03/2023 - Por Rodrigo Stürmer

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POR QUE FICO EM UM RELACIONAMENTO QUE FAZ MAL?

Diante da pergunta acima não são poucas as vezes em que ouço na clínica a seguinte resposta: "porque é a minha família, oras, como que vou me distanciar da minha família!?"

Essa resposta é baseada numa premissa totalmente equivocada: a de que tudo deveria ser tolerado pelo fato de vir de pessoas do mesmo sangue.

A pergunta que costumeiramente faço nesses momentos é: não deveria ser o oposto, ou seja, você receber da família justamente o que não recebe do mundo lá fora?

Mas são perguntas que não dão conta de pôr fim ao ciclo de se aproximar daqueles que tanto mal fazem.

Parece haver uma força que impele o sujeito a estar sempre buscando mais daquilo de que não gosta, a insistir, a tentar, a perseverar, mesmo sabendo o resultado final e a sensação que lhe é causada.

O que estaria agindo nas bases dessa insistência toda? Quais são os motivadores que mantém esse teatrinho todo de pé, essa encenação que não leva a lugar nenhum? - aliás, leva sempre ao mesmo e já conhecido lugar. 

Arrisco três possíveis hipóteses (dentre tantas), para essas questões, na imagem acima (é só arrastar para o lado).

A sensação que fico é que no fundo dessa dificuldade de "separação" daquilo que tanto faz mal, e por trás de todas as justificativas dadas, existe uma falta de desejo e de abertura para MUDAR uma vírgula sequer da própria vida.

É sempre mais fácil e cômodo responder "não posso, é a minha família" do que entrar em contato com o fato de que "não quero, não posso, não consigo mudar".

A vida adulta exige sacrifícios que nem sempre desejamos (e conseguimos) fazer.


Em 24/01/2023 - Por Rodrigo Stürmer

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ESTAMOS VIVENDO DE FAST FOOD

“Cara, isto é um áudio ou um podcast?”

Ouvir áudios com até no máximo 30 segundos parece tolerável, mais que isso virou ofensa e agressão.

Resumir uma ideia em quatro ou cinco linhas, para que o interesse da outra pessoa possa ser despertado, até vai, agora escrever textos de duas ou três páginas é só para malucos que não são capazes da objetividade que a superficialidade do mundo atual exige.

Estudar vendo vídeos (de preferência, curtos) é condição não só para quem aprende como para quem ensina; ir direto na fonte e retirar o conhecimento das obras originais, tendo que refletir, interpretar e traduzir virou coisa da era paleolítica.

Quais as consequências desse modo de funcionar contemporâneo sobre nosso comportamento?

Falta de pensamento crítico, de análise, de humildade frente ao que eu não sei, a tendência a buscarmos sempre prazeres rápidos e evitarmos qualquer tipo de desconforto, a incapacidade para lidarmos com frustrações, a busca por satisfações momentâneas, a incapacidade para tolerar e esperar, a impaciência e a dificuldade em lidar consigo mesmo e com o próprio silêncio, dentre tantas outras que eu poderia citar aqui (*mas que se eu me estender muito ninguém vai ler ).

Ou seja, estamos vivendo o tempo todo à maneira fast food. Imagine como seria se passássemos a nos alimentar todos os dias de hamburguer, batata frita e refrigerante. Quais seriam as consequências disso para nosso organismo?

Pois é exatamente isso que estamos fazendo: submetendo a nossa mente (e a nossa alma) a uma “dieta” pobre de “nutrientes” diariamente.

Seres humanos precisam de tempo, de lentidão, de paciência, de uma boa conversa que dure horas, de aprendizado que vá se adequando e se interiorizando ao mundo interno da pessoa, de situações que respeitem a singularidade de cada um. Para isso não existem atalhos. Qualquer tentativa de acelerar esse processo traz como consequência um estrago danado, nos tornando cada dia menos humanos, menos sensíveis, mais alienados e menos abertos a sermos afetados pelo mundo ao nosso redor.

E se eu te propor que você se faça a seguinte pergunta: “se amanhã eu não estivesse mais aqui, o que seria importante para mim, hoje?” Eu posso apostar que poucas coisas que você faz no teu dia a dia se manteriam.

Se você conseguiu ler esse texto até o final e refletir sobre o que eu disse, quem sabe você já não esteja tão alienado assim pelo modo de vida fast food.


Em 19/01/2023 - Por Rodrigo Stürmer

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Ah como os adultos adoram uma criança comportada, não é mesmo!?

Mal sabem eles que se trata, na imensa maioria dos casos, de crianças que foram privadas de poder ser quem elas realmente são; de poder se expressar espontaneamente no mundo.

E por que isso acontece?

Normalmente, porque a criança sentiu desde muito cedo que ela não poderia atrapalhar; que o ambiente e as pessoas ao seu redor já tinham problemas suficientes e que ela não poderia ser mais um.

A criança teve então que se manter reprimida e comportada para que pudesse ser aceita e inserida ao ambiente.

Quais as consequências disso?

O desenvolvimento de um modo falso de ser e existir no mundo, onde a adequação ao que os outros esperam dela está sempre sendo visado em detrimento de qualquer vontade e/ou desejo próprio.

Eis um mundo de "adultos" sem vontades e desejos próprios!

Pensemos nisto, com carinho, antes de decidirmos ter filhos.


Em 12/01/2023 - Por Rodrigo Stürmer

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SÍNTESE (PSICOLÓGICA) DA SÉRIE DAHMER

Esse é o tipo de texto que não sei se deveria escrever. 

Quando iniciei esta série fui tomado de uma repulsa imediata e jurei que não passaria do segundo episódio. Superado o asco inicial, a curiosidade em saber sobre como havia se dado as fases iniciais da vida do serial killer me fez permanecer firme. 

Mas já aviso de antemão, é preciso estômago para suportar os primeiros episódios.


A série Dahmer é contraditoriamente genial e horripilante. Baseada em fatos reais, narra a história de Jeff Dahmer, um canibal americano que durante os anos de 1978 e 1991 assassinou e comeu parte dos órgãos de suas 17 vítimas. A maioria delas eram negras e homossexuais.


Contrariando o senso comum, mas em consonância com aquilo que a Psicanálise nos ensina, percebemos o quanto a linha entre a saúde e a doença é extremamente tênue quando falamos em psicopatologia. De um garoto doce e sensível, que era completamente desdenhado pela família e vivia num desamparo completo, a um adulto psicopata frio e calculista. Mas é aí que uma das maiores contradições se torna ainda mais clara e assustadora para o telespectador: a capacidade que temos de nos indentificar e até mesmos nos sensibilizar com alguns traços do assassino. 

Existem momentos em que ele se mostra tão ingênuo e espirituoso que provoca a quem assiste um misto de pena e simpatia pelo personagem. Jeff é extremamente perturbador nas contradições que desperta no íntimo de cada um de nós. Do homem já adulto que cuida da avó com todo zelo e carinho, jantando com ela todas as noites, ao maluco que minutos depois dispensa a sobremesa para ir ao quarto beber o sangue fresco que acabara de tirar de um paciente no seu mais novo emprego. 

Insisto na ideia de que, para mim, o mais impressionante é percebermos o quanto a distância entre o psicopata que mata sem dó nem piedade e nós, seres "normais", é mais pequena do que imaginamos. Lembro de uma palestra que dei, tempos atrás, na faculdade de Direito, e que expus essa premissa: de que a diferença entre nós e um serial killer é que ele "apenas" se permite fazer o que a gente mantém em estado de repressão (o que é uma conquista e tanto de todos nós, diga-se de passagem).

Aí vocês podem estar pensando: então isso significa que qualquer um de nós pode vir a se tornar um cara desses? E afirmo que dependendo das condições ambientais a que fomos submetidos no início da vida e o que pode vir a acontecer ao longo dela, sim! 

A série é muito feliz em retratar tudo isso. Jeff poderia ter sido salvo se alguém houvesse dado atenção as suas queixas, que até então eram apenas fantasias? Tudo indica que sim. Mesmo após a sua prisão e condenação, a família de Jeff tenta buscar responsabilizar alguém pelo que aconteceu. Tenta encontrar repostas desesperadas para não ter que de se deparar com a própria irresponsabilidade (de uma mãe que abandonou o filho a própria sorte e de um pai canalha que além de completamente ausente ainda tenta faturar às custas da destruição do filho). 

Em tempos onde se tenta justificar tudo através da genética e da hereditariedade, a série Dahmer nos lembra que o buraco é sempre muito mais embaixo do que parece. 

Freud renasce todas as vezes em que a arte nos mostra que fatalismos só existem na cabeça daqueles que não desejam se responsabilizar pelo rumo das próprias vidas e pelas consequências que cada ato exerce num todo maior. Jeff Dahmer é a prova de que o ser humano é uma teia que não se resume a um corpo físico e biológico. 

Se tiverem estômago, assistam!


Em 02/01/2023 - Por Rodrigo Stürmer

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7 DIAS OU 365?

Tenho presenciado um fenômeno bastante comum, narrado por alguns pacientes, aos finais de cada ano.

Há, por parte de muitas pessoas, um sentimento de inadequação e de inadaptação diante do mundo que os rodeia.

E, junto a isso, um desejo de pertencimento.

Nessas épocas, onde muitos viajam para as praias, para o exterior ou para qualquer outro lugar, esse sentimento de “não estar à altura” dos outros ganha ainda mais força.

As redes socias, cumprindo o seu papel, incrementam ainda mais essa espécie de “desespero” e de comparação diante do que eu vivo e do que o outro vive.

Tamanha é a opressão e exigências que a cultura impõe a cada um de nós, para cumprir aquilo que ela dita como certo e errado, que sequer paramos para refletir sobre o que de fato queremos e desejamos.

Desejamos a praia, desejamos a viagem ou apenas precisamos cumprir o “check list social” para ficar “em paz” com nós mesmos e com o mundo?

Não nos esqueçamos que mais importante do que aquilo que fazemos entre o natal e o ano novo é como vivemos entre o ano novo e o natal.

7 dias ou 365?

Um bom fim de ano a todos (do jeito que der para ser ser)!


Em 30/12/2022 - Por Rodrigo Stürmer

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NO FUTEBOL BRASILEIRO, VIVEMOS A DICOTOMIA CARTESIANA

Disseram que Neymar nunca se preparara tão bem e nunca estivera em melhor forma do que para jogar essa Copa. 

No entanto, esquecera, e esqueceram-se os críticos, que um ser humano, e mais ainda um atleta, não é feito apenas de um corpo físico.

(Exemplo disso são as seleções da França e da Argentina que possuem psicólogos em suas comissões).

Não é de hoje que se sabe o quanto Neymar (e a seleção) sempre desprezaram qualquer preparação mental. 

Sempre afirmou em alto e bom som que “não era louco” e que “não precisava de psicólogo”. 

E, mais uma vez, Neymar “pipocou” na hora H. 

Iremos ver por aí inúmeras explicações que deem conta de explicar a eliminação do Brasil na copa. 

Nenhuma delas, novamente, vai levar, SERIAMENTE, em consideração o aspecto psicológico.

Mas para nós que trabalhamos com o psiquismo humano - que estudamos a influência do inconsciente nas doenças do corpo, que temos inúmeros exemplos de como somos sabotadores de nossos próprios desejos - são nítidas as dificuldades emocionais que Neymar (e a seleção) vem enfrentando (e negando) ao longo de sua carreira.

Ninguém discute que ele é um craque com as bolas nos pés, mas enquanto o “menino” não der passagem ao “homem”, Neymar continuará sendo, somente, “mais um”.  

Que pena. 

A campeã argentina, com destaque para Messi e o goleirão Martínez, sempre frisaram a importância da preparação mental. 

Enquanto isso a nossa seleção...

Será que dessa vez deu para aprender algo?


Em 19/12/2022 - Por Rodrigo Stürmer

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O DESESPERO DOS JOGADORES BRASILEIROS, AO FINAL DA PARTIDA, É AUTOEXPLICATIVO POR SI SÓ

Não gosto daquelas pessoas oportunistas, que se aproveitam de uma determinada situação para “rasgar o verbo” e falar o óbvio. Quem me conhece sabe que esse não faz o meu tipo. Então desde já quero deixar claro que nesse exato momento existem inúmeras pessoas Brasil afora criticando, dando de especialistas e colocando defeito na seleção brasileira, sendo que lá no início o que existia eram somente amores. Este tipo de pessoas emitem opiniões através do calor do momento e não por uma profunda reflexão sobre o assunto.

O que eu irei me propor a fazer aqui é exatamente o oposto: uma análise, o mais detalhada possível, sobre os reais motivos que levaram, novamente, a seleção brasileira fracassar em mais uma copa do mundo.

Desde o início fiz questão de enfatizar que a nossa seleção estava muito distante de qualquer possibilidade de algo maior nessa copa e que sequer havia sido testada contra seleções de maior envergadura. E no primeiro teste, caiu.

Quem acompanha o meu trabalho sabe que já são anos denunciando o descaso do futebol brasileiro em relação ao trabalho psicológico. E este é, para mim, o primeiro sintoma claro da crise que vive o futebol do nosso país. Explico.

Quando recebemos um paciente na clínica para tratamento psicológico e este paciente começa a desprezar a necessidade que ele mesmo tem de estar ali, já é um primeiro sinal de que “nesse mato tem cachorro” (como costumamos dizer aqui no sul), no sentido de que existe nessa pessoa, apesar da necessidade de ajuda, uma IMPOSSIBILIDADE de reconhecer que algo não está nada legal com ela. Damos, a este fenômeno, o nome de Resistência.

Uma pessoa que se torna resistente a um tratamento é uma pessoa que não está podendo reconhecer aquilo que tanto lhe aflige e faz sofrer. E, na grande maioria das vezes, não pode reconhecer em virtude justamente do tamanho da dor que o reconhecimento de tais situações lhe provocaria.

Ou, ainda, devido ao tamanho daquilo que tem a esconder. Como se algo de muito grave e profundo precisasse ser escondido. Normalmente, quanto maior é a resistência maior é o buraco que ela esconde.

Ou seja, onde existe resistência existe consequentemente o SABER inconsciente de que há algo muito dolorido do qual se precisa urgentemente fugir. Quais dores são essas? Podem ser inúmeras. Mas a questão aqui, em relação ao que este texto se propõe, me parece ser: DE QUAIS DORES A NOSSA SELEÇÃO DE FUTEBOL TANTO PRECISA FUGIR? O QUE TANTO SE TEM MEDO DE RECONHECER? O QUE TANTO SE DESEJA ESCONDER?

Não é de hoje que o senso comum teme a presença do psicólogo como se ele pudesse decifrar a alma de uma pessoa somente através do olhar. São visões estereotipadas, mas que no fundo escondem um saber. E um saber que sempre é maior, e mais temerário, para quem tem “culpa no cartório”.

Apesar de não ser o ideal, pois não estamos dentro da equipe acompanhando o dia a dia da seleção, penso que algumas hipóteses podem aqui ser comunicadas. Hipóteses fundamentadas ao longo de muita observação e de condutas que saltam aos olhos de um observador meramente atento.

Penso que a primeira delas consiste no fato de que a grande dificuldade que nossos profissionais do futebol têm é em reconhecer QUE NÃO SÃO MAIS OS MELHORES DO PLANETA.

Tomando a analogia de uma pessoa que inicia um processo psicoterapêutico, é sempre muito duro poder reconhecer, para mim mesmo, que não sou aquele “bam bam bam” que achei que eu era. Que não sou o “gás da coca” e a “última bolacha do pacote”.

A partir do momento em que alguém está em contato consigo mesmo, buscando autoconhecimento, necessariamente ele terá que se deparar com suas falhas e defeitos e que, na maioria das vezes, não deseja admitir para si mesmo.

Quando falamos então em jogadores consagrados, milionários, isso parece tomar proporções ainda maiores. É como se, para eles, o fato de terem atingido um alto nível fosse o suficiente para se manterem nessa posição e não precisarem de nada e de ninguém. Como se tudo se resumisse à parte técnica. Mas a questão é que cada vez mais o futebol não depende só dela.

Acho que aqui, portanto, podemos falar de uma falha narcísica. O que é uma falha narcísica? É quando alguém não pode se deparar com o fato de que ele não é tudo aquilo que ele imagina ser. É como se a pessoa passasse o tempo todo tentando compensar um sentimento de inferioridade se engrandecendo (coisa bastante comum inclusive de percebermos no cotidiano de todos nós).  

Ao permitir, por exemplo, a entrada de um profissional da psicologia dentro de um clube de futebol, se teme que aquele sentimento que tento ocultar o tempo todo possa vir à tona de uma hora para outra e colocar toda a minha vida e carreira por água abaixo.

Mas a questão é justamente o contrário, pois quanto mais tento ocultar de mim esses sentimentos, mais eles exercem poder influenciando negativamente a minha vida, tomando proporções ainda maiores e colocando inclusive um campeonato em risco. Pois, é justamente naqueles momentos mais decisivos, onde preciso estar mais confiante e integrado (como numa cobrança de pênaltis, por exemplo) que esses aspectos da personalidade negados se fazem mais presentes, resultando em insegurança, nervosismo, questionamentos internos etc.

Um outro ponto que quero mencionar aqui é sobre a arrogância e a soberba, mascaradas de humildade, que perpassa todas as ações, tanto da meninada como da comissão técnica, da seleção brasileira.

Sabemos que a arrogância é também uma forma um tanto desajeitada do ser humano lidar com toda a fragilidade que não suporta reconhecer em si mesmo. Pessoas que não lidam bem com o fato de serem falhas, frágeis, inseguranças, tendem a criar uma espécie de “personalidade falsa” que dê conta de se sobrepor a todos esses aspectos indesejáveis dessa personalidade “real” que existe nela.

O problema é que isso não funciona, pois acaba sendo um modo forjado de ser e que se desmancha frente à primeira frustração. Exemplo disso são as reações desesperadas de alguns dos principais jogadores na desclassificação para a Croácia. É impressionante de perceber que, assim como foi com o fatídico 7 a 1 contra a Alemanha, também o foi na partida de ontem. Jogadores soluçando desesperados, tendo que sair praticamente carregados de campo.

O que isso denuncia? Um excesso de autoconfiança que ignora completamente a realidade de uma partida de futebol.  Eu só desabo dessa forma perante uma derrota se eu sequer concebo conscientemente a possibilidade de vir a sofrer uma derrota. Isso mostra uma fragilidade narcísica, uma soberba e uma arrogância diante do outro, diante do adversário, que perpassa qualquer lógica inerente a uma atividade esportiva.

A própria atitude desprezível do técnico Tite, após o jogo, denuncia isso. Em nenhum momento foi capaz de reconhecer as dificuldades e fragilidades da equipe, em nenhum momento assumiu as suas falhas e erros, em nenhum momento se mostrou passível de um ser humano humilde que erra, aprende, parabeniza o adversário e segue a vida. Preferiu, como de costume, se mostrar imbatível, culto, íntegro, com a sua fala rebuscada que não diz nada com nada, mas que mantem seu ego inflado como uma bola de basquete. Isso sem contar o fato de ter abandonado seus atletas e fugido para o vestiário.

A diferença entre os jogadores que choram e de Tite que se mostra impassível é que, tanto uns quanto o outro, não toleram encarar de frente as suas imagens de derrotados.

Os “chorões” não choram porque amam o país e porque estão muito tristes em não poder trazer a taça da copa para casa. Não! Eles choram porque não passou por um segundo sequer em suas mentes que do outro lado havia um adversário à altura que seria capaz de roubar a cena. Em nenhum momento lhes ocorreu que no mundo não existe somente eles. Que eles não estão com essa bola toda como sonham estar. E que apesar de serem do país do futebol, eles não são, nem de perto, representantes daquilo que um dia foi o país do futebol.

Me desculpem os entusiastas dessa seleção, mas é preciso uma capacidade absurda de alienação para poder ficar sensibilizado com o choro de Neymar e ver nessa derrota, novamente, uma questão de azar ou de injustiça.

Que o recado tenha sido dado. No futebol, e na vida, a gente precisa muito mais aprender a reconhecer o outro, e sair um pouco de nós mesmos, do que achar que tudo é sempre sobre nós.

Quando isso não acontece, a vida, e o futebol, punem.

Na minha opinião, essa seleção, novamente, escancarou e nos deu uma aula sobre os tempos caóticos em que vivemos:  onde a técnica, o fazer, a “eficiência”, o egoísmo e o pensar apenas em si mesmo, perpassa toda e qualquer disposição ética, altruísta e humana.

Porém, dessa vez, só que não!


Em 10/12/2022 - Por Rodrigo Stürmer

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CADA "CHORO" EM SEU DEVIDO LUGAR

Vocês sabiam que não existe apenas um tipo de choro?

Existe o choro afetado. O choro desafetado.

O choro da dor. O choro da alegria.

O choro da melancolia. O choro da depressão.

Existe o choro do luto. O choro da frustração.

O choro do egoísmo. O choro do narcisismo.

O choro que fala apenas de si e o choro que fala sobre a dor do outro.

O choro real, sincero e o choro fingido, que nem em novela dá conta de enganar.

Existem, pois, diversas formas de chorar.

Nenhuma. Eu disse, nenhuma, é igual a outra.

Ah e já ia esquecendo: existe o choro do menino Ney e o choro de Cristiano Ronaldo.

O choro da mais pura e completa arrogância e vaidade e o choro do mais puro e completo profissionalismo e humildade.

O choro do fracasso e da não aceitação, da teimosia. E o choro da impossibilidade, de que tudo fora feito e é preciso somente aceitar.

Vão me dizer que todos eles são a única e a mesma coisa?


Em 10/12/2022 - Por Rodrigo Stürmer

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O DIA EM QUE A PRIMEIRA SESSÃO DE ANÁLISE SALVOU A VIDA DE UM PACIENTE

Luís foi a procura de um terapeuta em função das constantes crises de agressividade que vinha sentindo. 

Não estava mais suportando nem a si mesmo, como ele mesmo declarou na primeira sessão. 

Tudo o irritava: o toque sonoro do telefone, o barulho das pessoas na rua, a voz da esposa e dos filhos, os colegas de trabalho. 

Luís parecia incomodado até mesmo com o fato de ter precisado buscar ajuda de um profissional para compreender o que se passava com ele. 

Entrou na sala reclamando da espera e bastante contrariado de ter que falar sobre as coisas que estava sentindo com um “estranho”. 

Após alguns minutos de conversa parecia claro que a própria busca por tratamento psicológico não havia sido uma ideia sua, mas da esposa, que já não estava mais suportando o seu modo de agir. 

Tudo na vida de Luís parecia dizer respeito aos outros. Estava sempre se colocando numa posição de obediência em relação ao que lhe pediam e apesar das contrariedades dificilmente se posicionava de forma contrária. 

Próximo ao final de uma primeira sessão recheada de críticas, revolta e indignação, Luís questiona o terapeuta sobre o que achava de tudo aquilo que acabara de ouvir. Se poderia explicá-lo os motivos de toda essa raiva que sentia.

O terapeuta respira fundo e lhe responde: 

- Luís, eu não posso afirmar com convicção sobre o que te deixa irritado, mas algo posso te afirmar: você passou a sessão inteira me mostrando o quanto é difícil para você fazer o que você gostaria de fazer e desagradar os outros. Inclusive, você faz questão de me mostrar o quanto estar aqui comigo é algo que você não gostaria de fazer. Por que será que você faz isso? Será que essa irritação toda pode estar ligada a essa espécie de escravidão que você vive se colocando em relação aos outros?

Na sessão seguinte Luís conta que teve uma briga feia com a mãe, pois não tinha aceitado o convite para acompanhá-la numa viagem. A mãe ficou brava, acusou-o de não se preocupar com ela, deixando-o extremamente culpado. 

Horas depois Luís recebe um telefone de que a mãe havia se acidentado e estava no hospital, mas passava bem. 

Luís, branco igual uma cera, conta ao terapeuta que foi ver o carro “acidentado” e que o lado do passageiro (onde ele supostamente estaria) ficou destruído.

Com os olhos marejados diz:

- Doutor, o senhor salvou a minha vida!

O terapeuta, impactado com o que acabara de presenciar, sorri timidamente e diz:

- Luís, você salvou a tua vida! Que este seja apenas o primeiro passo...


Em 02/12/2022 - Por Rodrigo Stürmer

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SOBRE EMPATIA E COMPAIXÃO...

Essa copa do mundo tem me ensinado mais sobre mim mesmo.

Tenho aprendido algumas coisas sobre o meu modo de ser que não me eram tão claras até então.

Uma delas, que gostaria de compartilhar aqui com vocês, é sobre empatia e compaixão.

Sempre tive uma tendência a me preocupar e me apiedar pelos mais fracos e injustiçados, mas não pensei que fosse tanto assim.

E percebi isso mais nitidamente vendo as seleções de Gana, Senegal, Camarões, Marrocos e Irã jogar.

Sempre quando essas seleções entram em campo eu me pego torcendo e vibrando sem sequer me dar conta.

Toda a minha imparcialidade vai embora drasticamente.

No restante dos outros jogos, que não incluem estas seleções, eu sou totalmente imparcial, assistindo enfadonhamente e entediado os gols e os resultados acontecerem. Isto, inclusive, nos jogos do Brasil.

Foi legal perceber isso.

Por mais doloroso que seja estar sempre tão próximo e sensível à dor alheia, no fundo, acho que é isso que nos torna irmãos, no sentido mais puro e religioso do termo.

É esse sentimento de irmandade que nos coloca em comunidade de destino.

E vocês, têm aprendido algo com a Copa?


Em 31/11/2022 - Por Rodrigo Stürmer

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A HIPOCRISIA DIANTE DAS MINORIAS

Tenho percebido isso faz muito tempo e não é exclusividade somente do Galvão.

Há muita hipocrisia nos espaços que são destinados às mulheres, aos negros, aos homossexuais em nossa sociedade.

Parece mais um joguinho de marketing para ficar "bem na foto" do que propriamente valorizar a competência profissional de determinada pessoa.

Atualmente virou sinônimo de modernidade e respeitabilidade uma empresa ter em seu quadro um número x de mulheres, de negros e de homossexuais.

Esse é o problema de achar que simples ações externas mudem o quadro geral de uma sociedade.

Como eu sempre digo, se não vem de dentro, se não é genuíno, de nada adianta.

Qual preconceito e sofrimento emocional é pior: o de não estar incluído e não fazer parte ou de estar "incluído" e não ser visto?

Opinem.


Em 30/11/2022 - Por Rodrigo Stürmer

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TODO PACIENTE DESEJA E NÃO DESEJA SER CURADO

Uma das maiores dificuldades enfrentadas no tratamento psicológico de qualquer pessoa diz respeito ao que denominamos de Resistência.

Toda e qualquer pessoa que sofre deseja se livrar o mais rápido possível daquela dor. Isto, com certeza, é uma verdade que ninguém ousaria contestar e questionar.

No entanto, essa lógica não se aplica tão obviamente assim quando estamos falando de saúde mental.

Existe sempre, em todo paciente que procura ajuda psicológica, um desejo de cura, por um lado, e um desejo de não alterar uma vírgula sequer da sua vida, por outro.

Há um lado, digamos assim, saudável, que deseja ir além e se desenvolver (e é este lado que faz com que o paciente chegue até nós, terapeutas, para buscar ajuda).

Mas existe também um lado “doente”, que está extremamente habituado às suas condições de vida atuais e que usufrui de inúmeros benefícios (consciente e inconscientemente).

Por mais sofrida que esteja a vida de uma pessoa, essas duas posições estão sempre disputando espaço, uma tentando se sobressair à outra.

Cabe aqui a ressalva freudiana para que nós, analistas e terapeutas, tenhamos muito tato e paciência para que estas resistências possam ser vencidas e que não acreditemos, tão piamente assim, no desejo de cura expresso conscientemente pelo paciente.

Num texto de 1926, “A questão da análise leiga – conversações com uma pessoa imparcial” (pg 213-214) Freud e um “suposto” terapeuta iniciante conversam:

Freud: “Que o senhor se enganou com seu paciente; que não pode contar no mínimo com a colaboração e a condescendência dele; que ele está pronto a colocar toda dificuldade possível em seu trabalho comum – numa palavra, que ele não tem absolutamente qualquer desejo de ficar curado.”

Terapeuta iniciante: “(...) O paciente que está sofrendo tanto, que se queixa tão comovedoramente de seus males, que está fazendo um sacrifício tão grande para o tratamento – o senhor diz que ele não tem qualquer desejo de ficar curado!?”

Freud: (...) “O paciente deseja ser curado – mas ele também deseja não ser. Seu ego perdeu sua unidade, e por esse motivo sua vontade também não tem qualquer unidade. Se isto não fosse assim, ele não seria nenhum neurótico."


Referência


Freud, 1926, vol XX, pg 213-214 (A questão da análise leiga)


Em 28/11/2022 - Por Rodrigo Stürmer

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O FUTEBOL IMITA A VIDA

Poucas vezes vi um time de futebol compensar tanta deficiência técnica e tática com dedicação, esforço e entrega.

No futebol como na vida, nem sempre o esforço resulta em conquistas. Mas quando isso acontece é impossível não se sentir feliz e emocionado.

Eu, particularmente, fico em êxtase quando percebo pessoas, seja no nível em que for, sobrepujando as próprias limitações.

Valeu, Irã!

Apesar de tanta coisa negativa e exemplos nada legais que vocês tem passado para o mundo, hoje foi massa demais.


Em 26/11/2022 - Por Rodrigo Stürmer

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NEYMAR E O FATOR PSICOLÓGICO

Longe de mim querer fazer o papel de advogado do diabo. Mas tem uma cena que aconteceu no jogo da seleção brasileira que ficou muito marcada na minha cabeça.

Na volta do intervalo, a câmera focou no jogador Neymar voltando do vestiário atrasado, apressado, sem camisa, enrolando as fitas nos punhos, com as chuteiras desamarradas.

Quando a bola já estava rolando, ele se abaixou e começou a amarrar as chuteiras e logo após foi à beira do campo pedir uma espécie de calção térmico que alguns jogadores utilizam por baixo do calção.

Tá e daí?

Daí que não é de hoje que o menino Ney vive totalmente desconcentrado e desfocado nas partidas da seleção. O atrapalho dele na volta para o segundo tempo só comprova essa tese. Enquanto os grandes craques se diferenciam pela capacidade de foco, concentração e serenidade, Neymar parece sempre alterado, confuso, perdido.

Olhem a diferença do pênalti cobrado por Cristiano Ronaldo (na partida de ontem) da falta cobrada pelo Neymar. Cristiano faz inúmeras práticas de respiração para poder se acalmar e se prepar para a cobrança. Ele utiliza uma técnica que a gente chama em psicologia de mindfulness. Já Neymar parece que nem respira.

Lembrei muito das aulas do professor João Ricardo Cozac no momento da lesão de Neymar.

Quem estuda psicanálise associada ao esporte sabe da influência dos fatores emocionais e psicológicos no encadeamento de lesões desse tipo.

Por exemplo, o chamado "pé mole" que é quando o jogador entra em uma disputa desfocado, sem a força proporcional e acaba levando a pior.

Existem inúmeras outras situações que eu poderia citar aqui.

A própria ideia freudiana que consta no texto "Os arruinados pelo exito" poderia aqui ser contextualizada. Já que se sabe que não é incomum pessoas (e atletas são pessoas né) que em momentos decisivos acabam "sabotando" o próprio desempenho por não se sentirem à altura da conquista e nem conseguirem lidar com as consequências e exigências que o sucesso poderia vir a trazer. Tudo isso, inconscientemente, claro.

Enfim, fica como uma reflexão a ser pensada.


Em 26/11/2022 - Por Rodrigo Stürmer

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OS DESAFIOS DO FUTEBOL MODERNO

Câmeras ultra mega potentes (que captam até cisco no olho) sobrevondo a cabeça dos atletas, microfones que fazem com que a gente ouça até o domínio da bola nos pés, torcida colada ao campo, centenas de jornalistas clicando e falando tudo ao mesmo tempo... e por aí vai.

Como jogar bola diante desse cenário?

Como se manter focado, sem dispersar, por 90 minutos?

Vocês tem noção da importância da preparação mental e emocional para poder competir razoavelmente bem?

Mas parece que a nossa seleção "tira de letra", lida muito bem com tudo isso.

Sem contar as inúmeras outras questões de cunho interno, que diz respeito a subjetividade de cada um, dentre outras tantas que envolvem fatores institucionais.

Futebol é coisa séria!


Em 23/11/2022 - Por Rodrigo Stürmer

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SOBRE A SEXUALIDADE...

"Estou cônscio, naturalmente, de que nosso reconhecimento da sexualidade se tornou – quer confessadamente, quer não – o motivo mais forte da hostilidade de outras pessoas em relação à análise. Poderá isto abalar nossa confiança? Isto simplesmente nos revela como é neurótica toda nossa vida civilizada, visto que pessoas manifestamente normais não se comportam de forma muito diferente das neuróticas. Numa época em que a psicanálise foi solenemente levada a julgamento perante as sociedades cultas da Alemanha – hoje as coisas se tornaram inteiramente mais tranquilas -, um dos oradores alegou possuir autoridade peculiar porque, assim disse ele, chegou mesmo a permitir que seus pacientes falassem: para finalidades de diagnósticos, claramente e para pôr à prova as asserções dos analistas. “Mas”, acrescentou ele, “se começarem a falar sobre assuntos sexuais fecho-lhes as bocas”. Que pensa disto como um método de demonstração? A SOCIEDADE ERUDITA APLAUDIU O ORADOR CALOROSAMENTE EM VEZ DE SENTIR-SE, COM RAZÃO, ENVERGONHADA DO SEU RELATO. Só a triunfante certeza proporcionada pela CONSCIÊNCIA DE PRECONCEITOS SUSTENTADOS EM COMUM PODE EXPLICAR A FALTA DE PENSAMENTO LÓGICO DO ORADOR. Anos depois alguns daqueles que na época tinhas sido meus partidários cederam à necessidade de libertar a sociedade humana do julgo da sexualidade que a psicanálise estava procurando impor-lhe. Um deles explicou que o que é sexual não significa absolutamente sexualidade, mas algo mais, algo abstrato e místico. E outro chegou a declarar que a vida sexual é meramente uma das esferas na qual os seres humanos procuram por uma ação sua necessidade imperiosa de poder e dominação. Eles têm sido acolhidos com grandes aplausos, pelo menos no momento."

Freud, 1926, vol XX, pg 201-202 (A questão da análise leiga)

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BUSCAR FORA PELO TEMOR DO QUE SE PODE ENCONTRAR DENTRO

Não é de hoje (e me parece que cada vez mais) que tem se propagado o incentivo a estarmos sempre, o tempo todo, nos "desenvolvendo". Só cresce a quantidade de opções que temos a nosso dispor.  

Independente da área em que você atua, não será difícil encontrar algumas possibilidades de cursos, mentorias, seminários, treinamentos, etc, que tem como objetivo te tornar uma pessoa melhor e mais apta para FUNCIONAR no mundo atual em que vivemos.  

Todas essas possibilidades, sem exceção, visam o aprimoramento de habilidades técnicas.  


Mesmo que você faça parte da área de humanas, assim como eu, essas opções que parecem serem “não técnicas” e sim humanas, estão revestidas da mais pura hipocrisia, pois partem de uma premissa de que podemos conquistar fora de nós, no mundo externo, possibilidades que são inerentes a condição afetiva do ser humano, ou seja, internas.  

 

Falando de maneira simples, existem bloqueios emocionais, dificuldades afetivas que se manifestam na nossa vida diária das mais diferentes formas.   


Por exemplo, você pode estar tendo uma enorme dificuldade em lidar com o seu chefe no trabalho em função de questões não bem resolvidas com o seu pai.   


Ou você pode estar não conseguindo emagrecer em função da comida estar sendo inconscientemente representada pela carência em relação ao não afeto recebido da mãe (quem estuda psicanálise sabe da forte relação entre afeto e alimento).  

 

Estes são apenas alguns exemplos.  

 

Quero tentar mostrar com isso que a nossa mente é mestra em nos passar a perna, em fazer a gente se defender de nós mesmos e das nossas dores mais elementares.   


Ao optar, por exemplo, em fazer um curso sobre “relacionamentos” ao invés de cavar dentro de si, se permitindo sair do controle deixando a dor e as tristezas que você carrega falarem mais alto, você permanece cultivando essas dores e mantendo relacionamentos infrutíferos.   


O conhecimento necessário aqui não é o de aprender a se relacionar teoricamente, mas de descobrir, sentindo e lembrando, de todas as dores que fez com que você se colocasse numa posição “bloqueada” em relação aos relacionamentos.   


As nossas condutas diárias, por mais sofridas e difíceis que sejam, estão sempre (SEMPRE) tentando nos defender de coisas ainda piores que a gente tem um medo danado de se deparar.   


O problema é que quanto mais a gente foge mais nos aproximamos dessas dores e mais elas exercem poder sobre nós mesmos, sem a gente sequer se dar conta.   


É dessa forma, por exemplo, que o medo da solidão te faz estar cada vez mais sozinho (mesmo rodeado por um monte de gente); a urgência em encontrar um parceiro amoroso te coloca cada vez mais distante de um; a necessidade de ganhar dinheiro te coloca cada vez mais numa vida miserável.   


São todas artimanhas que a nossa mente tem de evitar com que entremos em contato com dores que parecem serem insuportáveis (e que quem sabe em alguns casos realmente sejam).   


É por isso que todo o cuidado do mundo deve ser tomado, por nós terapeutas, com aqueles que nos oferecem as suas vidas e seus segredos mais íntimos.   


Como uma vez um sábio pensador alertou: “cuidado com o que mexes. Se não dá conta é melhor nem mexer”. 


Em 16/11/2022 - Por Rodrigo Stürmer

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MORAL DE CUECA

Vivemos tempos estranhos.

Em meus 36 anos de vida jamais imaginei presenciar tamanha alienação ética e moral em relação à vida e à condição humana. Como profissional e estudioso da saúde mental me sinto no dever de dar uma palavrinha e me posicionar sobre o assunto. Recorro para isto a autores clássicos que me são caros e que penso já terem tratado em tempos passados sobre esse assunto. Me refiro principalmente a Freud e Dostoiévski.

Tanto um quanto o outro se debruçaram, ao longo de suas vidas, a compreender a complexidade do ser humano, do porque as pessoas são como são e o que as fazem agir dessa ou daquela determinada maneira. Penso que os dois se espantariam com as coisas que andam acontecendo por aí.

Falando de Brasil, tenho visto muitas posições rígidas de grande parte da população. Muitas pessoas se mostrando e se dizendo extremamente corretas, defensoras dos bons valores e dos bons princípios, prezando pelos bons costumes, indo "pelo certo" como diriam os mais antigos e conservadores.

Alguns, inclusive, reforçam o verbo e perguntam: "tu vai ensinar ao teu filho que o crime compensa?". Apavoram-se estes de que estaríamos perdendo valores importantes que regem a conduta da nossa sociedade. Debatem-se desesperados para tentar retomar a ordem nem que seja na base do grito.

De certa forma, tudo isso é compreensível, o medo está sempre andando de braços dados com aqueles desejos mais sombrios que negamos para nós mesmos. É sempre muito apavorante ver que o outro pode realizar aquilo que eu tenho vontade e não me permito. E por isso a necessidade de eliminar esse outro (ou esses outros) a qualquer custo. Quando, na verdade, não é o outro que eu desejo eliminar, mas aquilo desse outro que reverbera aquilo que está dentro de mim.

Mas não é sobre isso que quero falar, pelo menos não hoje, mas sobre essa espécie de “moralidade” e “espírito ético” que perpassam nossos tempos e que fazem com que muitas pessoas se sintam privilegiadas em relação à maioria.

Tanto Freud quanto Dostoiévski - dois dos maiores pensadores que esse mundo já viu - nos ensinaram, dentre tantas coisas, uma importantíssima: o que rege a nossa vida futura, o que somos ou seremos como pessoa adulta não são as palavras e condutas "corretas" que vimos nossos pais terem ao longo da nossa infância; o que é determinante para sermos pessoas integras é o afeto recebido, o cuidado com que fomos tratados, o acolhimento diante das nossas dores e dificuldades, a tolerância perante nossos erros e, principalmente, o respeito por aquilo que é único e exclusivo da singularidade de cada um.

Para estes dois autores o que torna uma pessoa realmente humana é o abraço, o calor do corpo do outro. A dignidade só pode ser oferecida a uma pessoa através do amor. Esta é a única possibilidade ética que importa na espécie humana. E é somente com isso, com essa disponibilidade afetiva atingida, é que podemos nos tornar de fato humanos que sentem.

Rigidez, moralismos, ideologias não passam de tentativas desesperadas de controle. Principalmente controle pelo humano que não nos foi possibilitado ser.

Se, após estas minhas palavras, você continua achando que deve lutar bravamente para que teus filhos distingam o bem do mal, o certo do errado, o duvidoso do não duvidoso, finalizo com uma citação:

(...) Às crianças se pode dizer tudo, tudo. sempre me chocou verificar como os adultos não as compreendem, o pouquíssimo que os pais entendem de seus próprios filhos. nada se deve ocultar às crianças, nem mesmo sob o pretexto de ser ainda muito cedo para que nos entendam. Isso é uma ideia triste e mesquinha. sim, logo se dão conta de que os pais as consideram pequeninas demais para compreender as coisas! E, todavia... sabem de tudo! Há gente crescida que ignora que mesmo no caso mais difícil uma criança pode dar um conselho acertado! Reparem bem, não é uma vergonha decepcionarmos esse pequenino pássaro que nos olha com tamanha felicidade e confiança? Digo pássaro porque não há coisa mais bela no mundo. (...) Nenhum de nós podia ensinar fosse às crianças, e que delas sim, tínhamos de aprender tudo. (Dostoiévski, 1869, p. 90)

Desejo a todos que possam aproveitar esse momento, que me parece bastante propício, para fazer as pazes com o amor e com o humano que vive dentro de cada um de nós.


Referências

DOSTOIÉVSKI, Fiódor. O idiota. Tradução José Geraldo Vieira. São Paulo: Martin Claret, 2018.

FREUD. Obras completas. Edição standard brasileira das obras completas de Freud. Rio de Janeiro: imago, 1980.


Em 07/11/2022 - Por Rodrigo Stürmer

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VALE A PENA SER BOM?

Dostoiévski, na pagina 106 da obra O idiota escreve o seguinte: “Uma boba com coração e sem senso é tão infeliz quanto uma boba com senso e sem coração. Esta é uma verdade bastante antiga. Eu sou uma boba com muito coração e quase nenhum senso, você é uma boba com muito senso e quase nenhum coração... Portanto, somos ambas infelizes e dignas de dó”.

Tenho refletido muito ultimamente sobre esta questão: afinal, o que significa ser uma boa pessoa? Quais são os valores que me são caros, o que de fato importa para mim nessa vida?

Vivemos em uma época onde o discurso, aquilo que se diz, perpassa toda e qualquer ação. Parecer haver mais interesse naquilo que se pode obter, conquistar, fazer, ter do que propriamente naquilo que se é (naquilo que ninguém pode ver ou “provar”).

Parece que aquela dimensão humana que se oculta dos olhos alheios tem perdido o seu lugar e a sua vez. Que lugar é este? O lugar da bondade, do altruísmo, do dedicar-se ao outro sem a necessidade de maiores benefícios.

Nesse livro, Dostoiévski vai narrar a história do príncipe Michkin, uma pessoa que similar à própria imagem de Jesus Cristo sempre oferece “o outro lado da face”. Ele nunca se envolve em confusões, ele nunca desrespeita ninguém, ele é bom com todo mundo, ele está sempre vendo o lado do outro ao invés do seu. Ele sequer reage ou se defende em virtude de alguma agressão injusta ou coisa do tipo.

Ao descrever esse personagem, Dostoiévski parece ter pretendido a ideia de um ser utópico, à semelhança de Deus, com uma pureza e benevolência acima da espécie humana. Acima? Pois então, o que aconteceria se nos deparássemos em nosso cotidiano com uma pessoa com tais características?

O que tenho percebido cada vez mais é que algumas características iguais as do príncipe tem causado enorme repulsa na vida das pessoas em geral. Não é incomum pessoas que não visam bens materiais, dinheiro a qualquer custo, não se preocupam em ter o carro do ano, não se atenham a ganhar mais ou menos do que o outro, serem tratadas como IDIOTAS.

O homem ou a mulher que não tem um projeto a longo prazo, que não sabe aquilo que quer ou vai ser daqui a cinco anos, que não tem projeto de família, que não tem ideia de investir em nenhum negócio, que não deseja aumentar a renda a qualquer custo e nem ter o melhor cargo ou a melhor posição social etc etc e tal, ou seja, que não se deixou levar (ou que luta bravamente) para não sucumbir aos padrões e ambições sociais, normalmente, são rotulados como perdedores, fracassados, sem foco, ou até mesmo, como se fala muito no senso comum “um sem serventia”.

Evoluir na vida, para essas pessoas, é sinônimo de posses. “Ser alguém” é conquistar coisas. Mas o pior não é isso, mas é que a gente compra facilmente essa ideia. E a partir disso passa a se julgar, se cobrar, se torturar e se punir por não ter “conseguido” alcançar esses objetivos. Quando, na verdade, existem outras lutas tão ou mais difíceis que essas, mas que ninguém vê. E o fato de ninguém ver traz a sensação de fracasso. A falta de reconhecimento externo dá a sensação de uma vida indigna. E para ser “digno” se é capaz de fazer coisas que nada tem a ver com o modo real de ser dessa pessoa.

Se para muitos a frase “você não tem ambição” soa como crítica, para outros “não ter ambição” pode ser um elogio àquilo que realmente importa. Tais “ambições” podem estar direcionadas a cuidar de si, a viver em paz com o “pouco” que se tem, é poder encontrar prazer no canto dos passarinhos (como um paciente me disse), é pode sentar no toco de uma árvore e admirar a natureza (como outro paciente me relatou), é não ser insensível a dor do outro, é poder se emocionar com as vitórias e fracassos que vivem ao teu redor, é não viver enclausurado em si mesmo e nas próprias “conquistas”. Enfim, é VIVER no sentido mais amplo que o termo significa.

Pensando nisso, e não por acaso, Dostoiévski deu o título para o Livro O idiota. Existem várias interpretações possíveis para esse título e para essa obra. Eu gosto de pensar (e é assim que eu o entendo) que nela está contida a mais pura crítica irônica. Idiota, no sentido do príncipe, é a forma como as pessoas veem aqueles que não estão voltadas completamente para si mesmas. Idiotas são aqueles que ainda mantem em si a sensibilidade para ver o mundo e o sofrimento que vive ao seu redor. Idiotas são aqueles que não vivem alienados em si mesmos, correndo em busca de sei lá o que, e que ainda mantem vivos em si resquícios do humano.

Aonde será que vivem os idiotas, quem são eles, afinal?

“O que eles pregam e exigem é o direito que uma pessoa tem, caso deseje deveras uma coisa, de não se deter perante quaisquer obstáculos, mesmo que seja preciso liquidar com meia dúzia de indivíduos para obter uma finalidade.” (p. 303)

Vale a pena ser bom? Ao final, a sensação que me dá é que essa pergunta se torna impossível de responder, porque para cada um só é possível fornecer aquilo que vive de mais verdadeiro dentro de si.

E você, se considera um Idiota? Quais são tuas lutas, teus valores, para que vive? O que de fato te é importante nessa vida? Fique à vontade para compartilhar comigo a tua opinião. 


Referência

DOSTOIÉVSKI, Fiódor. O idiota. Tradução José Geraldo Vieira. São Paulo: Martin Claret, 2018.


Em 07/11/2022 - Por Rodrigo Stürmer

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DICA DE SÉRIE

Lindíssima, esta minissérie turca, de apenas 8 episódios, fala de amor, relacionamentos, vida familiar e traumas.

Longe das megalomaníacas séries e filmes Hollywoodianos, "Uma nova mulher" toca no simples, no básico, no cotidiano e assim faz com que nos aproximemos das dores e vivências dos personagens de forma muito fidedigna.

Eu fiquei absolutamente encantado com a fotografia da série, com os lugares lindíssimos e com a simplicidade e profundeza de cada diálogo.

Para quem ainda não se convenceu do quanto tudo que vivemos em nossas vidas atuais, reflete não só o nosso passado como a história transgeracional de nossas famílias, sugiro muito que assista.

O enlaçamento entre passado, presente e futuro na vida de cada ser humano é muito mais complexo e profundo do que se imagina no senso comum. 


Em 12/10/2022 - Por Rodrigo Stürmer

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CONHECER PARA NÃO SE CONHECER

O uso do INTELECTO, da RACIONALIDADE, como meio de FUGIR de si mesmo é uma constatação no mundo atual em que vivemos.

Cada vez mais tenho percebido esse fenômeno, inclusive dentro do campo Psi e da Saúde Mental: uma tendência a se investir toda a energia na busca de CONHECER, COMPREENDER, ENTENDER.

Ou seja, SABER intelectualmente para não SE CONHECER vivencialmente.

Conhecer a nós mesmos implica uma certa dose de CORAGEM. Uma certa dose de FORÇA para investigar aspectos de nós mesmos que muitas vezes são extremamente DOLOROSOS.

Muitas vezes, intuitivamente, SABEMOS que se começarmos a cavar fundo dentro de nós mesmos poderemos nos deparar com acontecimentos, vivências que podemos até não suportar, de tão sofridas que são.

Este é um dos principais motivos que nos leva a RESISTIR a entrar em contato com nossas feridas mais profundas.

Tem me chamado a atenção o grande número de pessoas que estão migrando para área da saúde mental, pois desejam APRENDER mais sobre como funciona o nosso psiquismo, a nossa mente.

No entanto, na grande maioria dos casos, esse interesse esconde um DESEJO de poder SE ENTENDER sem precisar mexer dentro. Sem precisar ter que INVESTIGAR A SI MESMO. Sem precisar passar pelo DESCONFORTO e SOFRIMENTO de ter que cavar em acontecimentos e vivências que ainda estão bastante vivas e que a própria pessoa desconhece.

O problema disso tudo? A formação de profissionais e seres humanos cada vez mais TÉCNICOS, TEÓRICOS, CONCRETOS. Quando, na verdade, o que mais se requisita no mundo atual é o oposto: pessoas SENSÍVEIS, DELICADAS, que sabem SOFRER e acolher o SOFRIMENTO de quem SOFRE.

É o mundo moderno tentando transformar aquilo que é inerente ao ser humano em algo desnecessário. Não espanta estarmos cada vez mais alojados na técnica, como meio de não lidar com a destituição do humano que perpassa a vida de cada um de nós.

 


Em 10/10/2022 - Por Rodrigo Stürmer

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FALAR MUITO PARA SENTIR POUCO

Muito se fala sobre a dificuldade que muitas pessoas tem de expressar aquilo que sentem.

É muito comum, por exemplo, esposas, namoradas se queixarem pelo fato de que a grande maioria dos homens não gostam de falar sobre sentimentos.

Muitas vezes essas reclamações são legítimas, afinal, é muito difícil estar com alguém que tenta transformar a vida em pura objetividade concreta. Ainda mais se a outra pessoa for um mar de sensibilidade.

Mas existe outro tipo de pessoa que "dribla" os sentimentos não através do silêncio, mas da fala. São, normalmente, aquele tipo de pessoa que ao invés de silenciar fala o tempo todo e a todo momento.

No senso comum, estas pessoas quase sempre são vistas como comunicativas, extrovertidas, simpáticas. Porém, quando vamos analisar mais a fundo, podemos perceber que esta fala constante acaba funcionando como resistência. Ou seja, a pessoa aprendeu a utilizar a boca e o falar constante como meio de não ouvir a si mesma, de fugir de si.

Normalmente, quando são privadas do falatório costumeiro, estas pessoas tendem a cair em angústia e ansiedades quase insuportáveis. E por isso o silêncio, o estar só, é tão difícil para elas.

Quando em tratamento psicológico, o mesmo padrão tende a aparecer junto ao terapeuta: falar o tempo todo para não falar aquilo que realmente importa e lhe provoca angústia.

No decorrer do tratamento, se bem manejado pelo terapeuta, a fala começa a ceder lugar para momentos de silêncio. Estes momentos são recheados de angústia, mas importantíssimos para o entendimento do que afinal a pessoa tanto foge através do falar ininterrupto.

É dessa forma que, aos poucos, uma certa serenidade e maiores momentos de instrospecção podem passar a fazer parte da vida da pessoa.

Se você conhece alguém com essa problemática, fique a vontade para enviar para ela este texto.

 


Em 16/09/2022 - Por Rodrigo Stürmer

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ATÉ QUANDO, FUTEBOL?

Ontem à noite, enquanto dava aula sobre a Psicologia do Esporte para os formandos da psicologia da @faculdadeideau a convite do meu amigo @adamipsicanalista fui informado por mensagem pelo professor @joaoricardocozac da troca de técnico do Grêmio. Foi uma grande coincidência porque naquele exato momento estávamos falando em aula sobre a banalização da psicologia no Brasil e do quanto o senso comum prepondera em relação à ciência.

Entra ano sai ano e a história é sempre a mesma no futebol brasileiro: tenta se resolver questões emocionais trocando o técnico. A conta nunca cai naqueles que deveriam paga-la. Nunca se investiga à fundo e se resolve de fato o problema. Fazendo analogia com uma cirurgia onde se precisa remover um tumor, no futebol, a cirurgia nunca é feita, pois passa-se a vida remediando os sintomas, mas nunca se investiga as causas reais do problema.

É muito triste o que tem acontecido ano após ano no futebol brasileiro. Se em 2014 perdemos a copa levando 7 de uma seleção que contava com nada mais nada menos que 16 psicólogos na equipe, seguimos para mais uma copa com NENHUM profissional da saúde mental.

Alguns dias atrás o @brusqueoficial desligou o professor @luancarlos_professor , o mais jovem treinador em atividade profissional nesse país. Um cara sério, estudioso, competente e que vinha fazendo um bom trabalho e, principalmente, não dissociando SER atleta e SER humano.

No futebol brasileiro, passa-se por cima de qualquer princípio humano e moral para atingir o fim. É aquela velha história de que os fins justificam os meios.

Tenho acompanhado os últimos anos de luta incessante do prof João em torno da conscientização dos aspectos psicológicos no esporte e tive a honra de ser convidado a escrever um capítulo do seu no livro "O que está em jogo além do jogo". A nossa luta como psicólogos que também trabalham com esporte não é somente em torno de valorização da profissão, mas antes e principalmente o respeito em torno da pessoa humana.

No meu artigo de conclusão da pós o tema foi "profissionais da bola: seres de afeto". Parece que se esquece que por trás de um atleta de alto desempenho existe um ser humano clamando por atenção e cuidado.

Ou a gente começa a engrossar o coro junto com o professor João e grita alto até que alguém escute ou sei lá. Por isso, se você que me lê gosta de esporte, entende a importância dos aspectos emocionais, faz ou já fez terapia, é profissional de psicologia ou estudante, e, principalmente, respeita os aspectos humanos, te peço gentilmente para disseminar esse post pela internet, pois continuo nutrindo a esperança (quase ilusória) de que algum dia esse cenário possa se modificar. 

 


Em 02/09/2022 - Por Rodrigo Stürmer

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Se eu pudesse dar um conselho, diria: parem de ouvir esses coaches de relacionamento que fazem pose de hetero top bem resolvido. Ficar com "todo mundo" e não ficar com "ninguém" fala da mesma carência e dependência emocional.

 

Em 20/02/2024 - Por Rodrigo Stürmer

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